sexta-feira, 2 de abril de 2010

Dona Adélia


Quem melhor do que ela para falar de mulheres, de amores, de emoções femininas? Adélia é completa.

Dona doida(Adélia Prado)

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso,
com trovoada e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Texto extraído do livro "Poesia Reunida", Editora Siciliano - 1991, São Paulo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ah, esse Vinícius...



O que tinha de ser

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher

Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser.

Sedutor, bon vivant, romântico inveterado, conquistador incorrigível, poeta irrepreensível, amante da vida, Vinícius de Moraes, nosso grande poetinha, soube viver. E deixou como herança alguns dos mais belos poemas de amor e paixão.

(Quem souber o crédito da foto, que inclui o parceiro Toquinho, favor me dizer.)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Mais um da Sylvia

Por que será que sou tão fascinada por essa escritora tão lúcida e louca que pediu pra sair da vida no ano em que nasci? Talvez nuncasaiba a resposta. Por hora, um poema:

Canção de Amor da Jovem Louca

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Sylvia Plath

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Caçador de Pipas


Romances sobre culturas diferentes como o Afeganistão têm sido uma febre nos últimos anos. Olho-as com um pouco de reserva. As pessoas tendem a olhar o "diferente" com encantamento, porém é um encantamento meio falso. Dura o tempo de ser uma válvula de escape. Como se dissessem: - Ainda bem que eu não vivo nesse lugar ou nessa cultura. Não chega a ser um interesse real. Histórias contadas em forma de narrativa sempre deixam um fio de incerteza: -Será que isso realmente aconteceu? - o que prende ainda mais o leitor. É o caso de O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini.

O livro conta a história de um afegão há muito tempo emigrado nos Estados Unidos, que se vê obrigado a acertar as contas com o passado numa viagem de retorno a seu país de origem. O que ele teria deixado para trás?
Ao longo da história, lê-se nas entrelinhas o tempo todo, um sentimento de culpa e remorso. Na primeira parte do livro, sente-se exatamente como se sentia o menino Amir, gostando e, ao mesmo tempo, repudiando seu amigo. O amor e a vergonha que sentia por Hassan, dócil, solícito e afetuoso. Uma bondade que chega a nos enervar, visto que sentimos que não é totalmente correspondida. Apesar de não poder estudar, Hassan acordava todas as manhãs e preparava o desjejum de seu amigo. Amir compensava lendo para Hassan as histórias que ele jamais poderia decifrar.
Tendo ido morar nos EUA deixando para trás Hassan e o caos do país, Amir volta, já adulto, para tentar se redimir de eventos do passado. É quando a história assume tom rocambolesco e quase inverossímil. Por muitos momentos, senti-me como se o autor quisesse arrancar lágrimas do leitor pura e simplesmente. Certas partes são extremamente dolorosas. Porém, outras, muito rasas, muito cruas, sem estilo. A cultura de castas no Afeganistão era e é injusta. Forma pessoas que, mesmo que não concordem com ela, nada fazem para mudá-la. Dizem que O Caçador de Pipas é uma história de amizade entre os dois meninos, Amir e Hassan. No meu entender, é a história da amizade de Hassan por Amir, seu desvelo e cuidado, e de como ela ficou marcada na vida do amigo. Não me dei ao trabalho de assistir ao filme. Para mim, seria mais um caça-níquel.