sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, capítulo final.

Morreu hoje, em Lanzarote, Espanha, aos 87 anos, um ser humano raro e um escritor extraordinário: José Saramago. Entre os meus livros preferidos, dois são de sua autoria - Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes. Tinha um jeito peculiar de escrever e contar histórias, que o tornou singular. Possuía uma temática engenhosa e inesgotável. Escrevia de um só fôlego, omitia parágrafos, pontuação, redigia romances inteiros sem colocar um nome sequer num personagem. Desafiava o catolicismo, com jeito maroto, mas não, no meu entender, desrespeitoso. Foi o único escritor em língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, com o livro Memorial do Convento, o que para nós, brasileiros, também é motivo de orgulho. Gostaria que Saramago vivesse mais 100 anos para poder continuar nos brindando com sua escrita genial. Porém, a herança que deixou, com sua profícua obra, já é um grande presente. A melhor homenagem que podemos lhe prestar é ler (e reler) seus grandes livros.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Pablo, Vinícius, Fernando



Um pouco de romantismo não faz mal a ninguem. Em homenagem ao Dia dos Namorados que está chegando, três mestres no assunto. Poemas que são eternos como um grande amor.

Antes de Amar-te (Pablo Neruda)

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Soneto da Fidelidade (Vinícius de Morais)

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Todas as cartas de amor são ridículas
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

domingo, 30 de maio de 2010

Tempos muito estranhos.

Quando a Alemanha de Hitler já tinha invadido diversos países e a Inglaterra lutava desesperadamente para manter-se estável, os japoneses atacaram Pearl Harbour - e os EUA foram forçados a entrar no conflito. Esse livro conta os bastidores dessa história na casa mais famosa dos EUA: a Casa Branca.
Tempos muito estranhos, de Doris Kearns Godwin, é um relato dos anos de Franklin Delano Roosevelt no posto de homem mais importante dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Confesso que  que antes de lê-lo, pouco sabia sobre Franklin Delano Roosevelt. Sabia de sua relevância no new deal, a aliança com o poderoso Churchill durante a Segunda Guerra, mas não conhecia muito de sua personalidade. E o livro acabou sendo uma lição que nunca aprendi na escola. Ele revela o cotidiano do casal Franklin - Eleanor Roosevelt, seus amigos, companheiros (e amantes) durante o maior conflito mundial, ao mesmo tempo em que esboça os acontecimentos mais
 marcantes da época. Ao longo dos capítulos, desvenda a personalidade carismática de Roosevelt; a paralisia após a pólio, que não o impediu de ter uma vida pública intensa; seu otimismo e autoconfiança, sua habilidade em cativar pessoas dos mais diferentes tipos, seu casamento e parceria com Eleanor Roosevelt, que teve uma ascensão gradativa, de simples esposa do presidente a uma das mulheres mais influentes do país – quase ofuscando o brilho do marido.
O livro é enriquecido pela descrição de personagens fascinantes que, mais do que participar da vida do casal, compartilhavam de sua intimidade, morando em aposentos da Casa Branca; alguns, durante anos. Entre eles, Missy LeHand, secretária partícular e amiga do presidente, que a ele devotava verdadeira adoração. Segundo alguns, Missy se comportava como a real esposa de Franklin, que tinha por ela a mesma afeição; Harry Hopkins, que a autora chama de alter-ego de Roosevelt, seu assessor no período mais conturbado de seu mandato. De aspecto frágil e esquelético, Hopkins era, porém, muito contundente em suas ações e fiel ao extremo. Era ele quem viajava para a Inglaterra para encontros estratégicos com Churchill, antes mesmo do primeiro contato entre os dois estadistas.
Outra figura peculiar era Lorena Hickock, chamada de Hick, jornalista e grande amiga de Eleanor, com quem, especula-se, ela teve uma ligação amorosa. E o próprio Churchill, que esteve hospedado algumas vezes na Casa Branca, com seus hábitos pitorescos de só dormir de camisolão e pedir ao mordormo “uma dose de Cherez pela manhã, duas de uísque com soda no almoço e um champanhe 90 anos à noite”, além da escapulida diária para a sesta vespertina.
Em um dos trechos mais engraçados do livro, o primeiro ministro inglês aparece de camisolão, traseiro à mostra, engatinhando no compartimento de bombas do avião que o transportava para um encontro em Casablanca com o presidente americano.
O livro reúne, ainda, momentos contundentes, como quando a população americana é conclamada a participar, doando potes e panelas de alumínio para serem derretidos e reutilizados na fabricação de aviões. Meias de seda das senhoras deveriam ser doadas para a fabricação de para-quedas, momento em que Eleanor, para dar exemplo, passa a usar meias pretas de algodão.
Em Tempos muito estranhos, a primeira dama ocupa espaço tão relevante quanto o do presidente. Sempre fiel à causa social e impelida a participar  efetivamente dos acontecimentos em seu país, foi a primeira esposa de presidente a ter um emprego no governo, a comparecer diante de um congresso, a dar coletivas à imprensa e manter uma coluna nos jornais. É marcante no livro sua decisão de viajar para a Inglaterra para visitar as tropas americanas ali posicionadas. Nos EUA, quando a mão-de-obra torna-se escassa, ela incentiva as norte-americanas a entrarem para o mercado de trabalho, já que os homens, seus pais, maridos e irmãos estavam no front de guerra – e o país não podia parar. Com isso, as mulheres tomaram gosto, assumiram tarefas tidas como masculinas em fábricas e indústrias e nunca mais foram as mesmas. Porém, o fato de Eleanor aparecer com tanta intensidade no livro, não significa que Roosevelt não se destaca. Ao contrário: carismático e confiante, ele justifica a imagem de um dos homens mais importantes de sua época e as passagens de seus diálogos com Churchill são inesquecíveis. Em determinado ponto, registra-se uma frase de Roosevelt para o amigo britânico: “É muito divertido estar na mesma década que você". Em outro trecho, quando alguém pergunta à Primeira Dama como pensa o Presidente, esta responde: "Meu caro, o Presidente não pensa, ele decide".
É interessante como esse homem, que se locomovia por cadeira de rodas, quase nunca demonstrava fraqueza. Caminhava apoiando-se e discursava de pé, daí o fato de sua deficiência ser esquecida. A imprensa era tão solidária a ele que não o fotografava em cadeira de rodas.
Eu levaria muitas páginas para discorrer sobre por que o livro Tempos Muito Estranhos é uma grande obra. Mas prefiro recomendar a leitura. Será muito mais prazeroso.

Livro - Tempos Muito Estranhos
Autor: Doris Kearns Godwin
Editora: Nova Fronteira

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Outro - Bernhard Schlink



Li esse livro esperando o meu vôo no aeroporto. Tão curtinho, 96 páginas, deu até pena de acabar logo. O autor, Bernhard Schlink é o mesmo de O Leitor, que ganhou uma versão cinematográfica e deu um Oscar para Kate Winslet. Diga-se de passagem, o filme é muito bom.
O Outro segue a mesma linha e estilo de O Leitor. É um livro que nos prende até o fim. O texto de Schlink é sucinto, objetivo, mas a história, sim é engenhosa. Após a morte repentina de sua esposa (Lisa), um homem (Bengt) recebe uma carta de alguém que não sabe que ela morreu. A grande curiosidade ou comiseração o leva a abrir e ler a mensagem, momento em que começa a descobrir um outro lado de sua esposa que ele não conhecia. Ela tinha com o autor da carta uma ligação amorosa.
Obcecado por entender que ligação é essa e como ela se deu sem que ele percebesse, o homem decide responder a essa carta, como se fosse Lisa. Ao mesmo tempo que mantém viva a memória da esposa, a cada nova carta, ele a redescobre. O que se lê nas entrelinhas é a angústia do homem ao perceber que sua esposa não era sua, não era quem ele julgava ser. Ela, sim, era outra.
Nas páginas seguintes, sente-se que o próprio marido está se deixando seduzir pela figura do amante (não no sentido sexual, mas mental). Afinal, quem será esse homem extraordinário que mereceu o amor de sua esposa? Inevitavelmente chegará a hora de ele ir ao encontro do Outro.
A mensagem do livro é muito clara. Ninguém rouba ninguém de você. Você é quem deixa o seu amor partir. Por comodismo, por excesso de confiança, por amar de menos – ou demais.
Não é o amante quem seduz: é o outro, que se deixa levar - ou amar - por curiosidade, cansaço, tédio, desespero. É a vontade de amar e de ser amado - ou conquistado - que faz alguém se entregar.
Ou, melhor dizendo, o que nós amamos não é a pessoa: é quem nos tornamos por causa dela. Deu pra entender?

Bernhard Schlink nasceu em 1944, em Bielefeld, e é jurista de formação. Autor, entre outros, de O leitor, A volta para casa e A menina com a lagartixa. O Outro também ganhou versão cinematográfica, com Liam Nesson, Antonio Banderas e Laura Linney.

Editora: Record
Autor: BERNHARD SCHLINK
ISBN: 9788501085436
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 96