sexta-feira, 30 de julho de 2010

O Vermelho e o Negro, Stendhal

Um jovem, duas mulheres, um destino. Em O Vermelho e o Negro Stendhal conta a história de Julien Sorel, um autentico anti-herói, descrevendo suas lutas, embates, vitórias e derrotas, alegrias e dores, como convém a qualquer ser humano, com defeitos (muitos) e qualidades (algumas).
Filho de um marceneiro e renegado pela família (seu pai achava que ele não servia para nada), Julien tinha inteligência acima da média e memória excepcional. Estudava Teologia (chegara a decorar a biblia em latim) e trocava qualquer  trabalho braçal pela leitura de um clássico, para horror do seu pai que o desprezava ainda mais.

Jovem de extrema beleza e marcante palidez, tinha grande poder de sedução e sabia exercer suas qualidades para conseguir o que quisesse. Sabia que não tendo berço, só possuía dois caminhos para a ascensão social - a farda militar (o vermelho) ou a batina (o negro), por isso aproveita bem as chances que lhe chegam às mãos. Protegido do cura Chèlan, ele é convidado pelo Senhor de Rênal para ser preceptor de seus filhos,  função que desempenha com competência, dividindo o tempo entre as aulas às crianças e um tórrido caso amoroso com a esposa do patrão. Enquanto vive com os Rênal, procura habituar-se aos costumes da corte, aprendendo o manejo social. Porém, mesmo ascendendo, Sorel continuava a ser "um pobre entre os ricos".
Nesse romance psicológico, que serve de pano de fundo para que Stendhal descreva e teça críticas à sociedade parisiense no período que sucede a Revolução Francesa, acompanhamos e nos envolvemos com os dramas e alegrias de um personagem no qual nenhum gesto ou palavra é gratuita. Ao envolver-se com a Senhora de Rênal, inicialmente vê no romance um desafio, uma batalha a vencer, porém, acaba se apaixonando verdadeiramente "Diz a si mesmo; ' Se à meia-noite, não conseguir coragem para segurar a mão dessa mulher que se acha ao meu lado, é claro que não passo de um covarde: subo ao meu quarto e estouro os miolos.'" Quando o romance é rompido, por causa de uma carta anônima, Julien parte para o seminário e mais tarde envolve-se com Mathilde de la Mole, uma jovem rica, que a princípio o rejeita, por ser de classe inferior, porém mais tarde, se deixa conquistar.

"Não, ou estou louco ou ela me faz a corte; quanto mais me mostro frio e respeitoso com ela, mais me procura. Isso poderia ser uma parcialidade, uma afetação;mas vejo seus olhos se animarem quando apareço de improviso. Saberão as mulheres de Paris fingir a tal ponto?" Mais uma vez Julien usara de sua inteligência para conquistar o amor de uma mulher. No entanto, a Senhora de Rênal ainda será crucial em seu destino.

É curioso perceber o quanto existe de humanidade na figura de Julien Sorel. Jovem, ambicioso, autêntico em seus desejos, extremamente sedutor, traiçoeiro em suas ações, porém honesto em suas verdades,  ele é sarcástico, arrogante, mas também se deixa levar por paixões, vive o céu e o inferno ao longo das 489 páginas do romance.* Ao longo dos capítulos sofremos por Julien, torcemos por ele, amamos e odiamos sua figura ao mesmo tempo. Anti-herói por excelência, não é de todo mau, contudo seguramente nada tem de bondade.

O Vermelho e o Negro não é um livro fácil e superficial. É denso, forte, pesado em muitos pontos, porém, a cada capítulo, prende mais o leitor no emaranhado das relações de Julien Sorel que termina condenado pela mesma sociedade que tanto desprezou e cobiçou.

Com essa obra, publicada em 1830, o autor Henri Beyle, mais conhecido como Sthendal, marca o início do Realismo na literatura francesa, deixando de lado toda a tradição romântica.
*Martin Claret, Coleção A Obra-Prima de Cada Autor.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Achei que meu pai fosse Deus (Paul Auster)


Dizem que a vida imita a arte.  Em certos casos, porém, a arte pode imitar ou abastecer-se de realidade. É o que acontece nessa singela coletânea de histórias reunidas por Paul Auster no livro "Achei que meu pai fosse Deus - e outras histórias verdadeiras da vida norte-americana".  
Trata-se de uma compilação de textos escritos por pessoas comuns, relatando "causos", fatos e memórias de suas próprias vidas - bem como de parentes ou conhecidos - das mais variadas regiões dos Estados Unidos.  Convidado a fazer um programa mensal numa rede de emissoras de rádio, o escritor Paul Auster, por sugestão de sua esposa, pediu aos seus ouvintes que enviassem relatos a serem lidos no ar. A única obrigatoriedade era que fossem "histórias verdadeiras que parecessem ficção e que se recusam a obedecer as leis do senso comum". 

Prontamente foi  surpreendido por centenas, milhares de cartas enviadas de todos os cantos do país, por donas de casa, padres, empresários, fazendeiros, veteranos de guerra. Em apenas um ano, recebeu mais de 4 mil relatos. "Tantas vozes de tantos lugares diferentes. Era como se fosse toda a população dos EUA invadindo minha casa."  E o que havia sido uma ideia para um programa de rádio transformou-se em um livro, no qual ele seleciona algumas das melhores histórias enviadas.
Dividido em 10 categorias - Animais, Objetos, Famílias, Sonho, Morte, etc - o livro reúne relatos comoventes, alguns quase pueris, outros fantasiosos e mesmo assustadores, contados por vozes reais, sem preocupação literária, a não ser por uma cuidadosa edição realizada por Auster. Um a um, os personagens falam de suas vidas, ou de pessoas próximas, revelando um fato extraordinário, um momento incomum, como se estivessem sentados na varanda de suas casas. 
Descobrimos, assim, como a aliança de ouro da mãe se transformou no primeiro par de calças que o jovem John Keith, da California, usou na vida. Divertimos-nos com a  história Tony Forwell, de Kentucky, cujo pai tinha um nariz que controlava sua vida. E nos comovemos com a  amizade de 62 anos entre Beth Coff, de Nova York e Jean, que se encontraram apenas duas vezes na vida: a primeira, numa viagem de trem, quando trocaram endereços para  correspondência - e a segunda, seis décadas depois, já octogenárias, viúvas e realizadas. 
Podemos imaginar a cena hilária de Nancy Wilson, de Nova Jersey que, ao nadar nua num lago, perdeu as roupas e, literalmente, atravessou a porta de nylon de uma casa próxima, desabando diante do olhar atônito dos residentes. Há também narrativas intrigantes como a da avó de Martha Duncan, do Maine, que morreu sufocada num incêndio em sua casa. No armário do salão dos fundos, totalmente destruído pelo fogo, a única roupa intacta era o vestido branco que a velha senhora reservara, há anos, para ser usado em seu funeral. 

Impressionante? Talvez. Mas não há dúvidas de que a vida possa, em diversos momentos, superar a arte. E pessoas comuns recebem provas disso todos os dias. 
Com suas narrativas simples, humanas e despretensiosas, "Achei que meu pai fosse Deus" (título que advém de um dos textos do livro) é uma leitura que enriquece.


Abaixo texto publicado na Veja On Line sobre o livro: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/230205/trecho_pai.html

Companhia das Letras, 400 páginas, organizado pelo escritor norte-americano Paul Auster.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Castelo de Vidro.

Jeanette Walls é uma bem-sucedida jornalista de uma revista de Nova York. Mas por trás desse presente de sucesso há um passado perturbador que ficou por décadas escondido até que ela resolveu abri-lo nas páginas de um romance autobiográfico. A partir daí, somos transportados a uma infância repleta de fantasias mas nem um pouco fabulosa, onde Jeanette e seus irmãos, Lori, Brian e a caçula Maureen passam por inacreditáveis peripécias para sobreviverem às loucuras e negligências de pais nada convencionais. Rex Walls era um intelectual brilhante mas escritor fracassado, que vivia quase sempre desempregado, por conta do alcoolismo e do vício no jogo. Rose Mary, uma artista lunática de personalidade bipolar, também não durava muito nos empregos de professora, pois preferia dedicar-se a pintar quadros que nunca vendia.
Ao leitor, é bom que se advirta: a leitura de O Castelo de Vidro pode causar náuseas, indignação, revolta. Espécie de catarse da autora (escrevê-lo parece ter sido uma maneira dela se reconciliar com seu passado), as memórias de Jeanette Walls chegam a ser assombrosas. É surpreendente como essas crianças sobreviveram a tantos perigos, desconforto, insegurança e constrangimentos. O casal, que parecia não ter condições de cuidar nem de si mesmos, impingia aos filhos uma educação nada ortodoxa, baseada em conceitos que eles mesmos criaram. Jeanette cresceu sem certidão de nascimento (Rex e Rose Mary não achavam necessário registrar os filhos). Aos 3 anos, ela se queimou tentando cozinhar uma salsicha (porque os pais diziam que eles tinham que se virar sozinhos desde pequenos). Viviam mudando de cidade, sempre que os pais perdiam o emprego ou se metiam em confusão, deixando para trás quase todos os pertences.
Falando assim, parece crueldade extrema, mas o tom carinhoso e bem-humorado com que ela nos relata sua infância ímpar, nos leva a (quase) nos simpatizarmos com essa estranha família.  Episódios assustadores são tratados como "aventuras", como aquele em que o pai sai pelo deserto dirigindo quase desgovernado, fazendo com que a autora, ainda uma menina, seja lançada para fora do carro. Detalhe: ele leva algum tempo para perceber que a pequena não estava mais no veículo. Em outro momento, um marginal entra pela casa aberta à noite e tenta pôr as mãos em Jeanette, sendo perseguido pelo irmão Brian, enquanto os pais dormem pesadamente. Há ainda o trecho trágico e patético em que Rose Mary come chocolates escondida debaixo das cobertas enquanto as crianças não têm com que se alimentar.
Com tanta loucura e irresponsabilidade, os filhos tiveram que inventar meios de sobreviver, lutando contra a fome, o frio, o abandono. "Quando as outras garotas jogavam fora os sacos com os restos do almoço, eu ia catar na lata de lixo (...). Eu voltava para dentro do banheiro e dava uma conferida nas minhas descobertas deliciosas antes de comer".
Há salvação para isso? Entre traumas e dores, a autora prova que sim. De um jeito ou de outro, as crianças tornaram-se adultos bem-sucedidos (abra-se exceção para a caçula, Maureen, cuja história se entende melhor ao ler o livro). Exemplos de superação que confirmam a máxima popular de que "o que não mata, fortalece".
Mais do que sobreviver, o maior desafio de Jeanette Walls e de seus irmãos foi perdoar e amar seus pais, apesar de tudo. Chegar ao fim do livro traz  uma espécie de alívio, é um autêntico final (quase) feliz para um conto de fadas aterrador. Como história real, é comovente e exemplar. Porém, como literatura, é apenas um livro mediano.

Jeanette Walls nasceu em 1960, na cidade de Phoenix, Arizona. Formou-se pela Universidade de Columbia e foi repórter da New York Magazine, Esquire, USA Today e MSNBC.com, onde trabalha atualmente.

Livro: O Castelo de Vidro.
Autor: Jeannette Walls
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 368

http://pt.shvoong.com/books/biography/2030677-castelo-vidro/

quinta-feira, 24 de junho de 2010

As Paixões de Rosa.

O pintor Amedeo Modigliani viveu um romance confuso com a bela Jeanne, e quando morreu, na miséria e destroçado pela bebida, sua esposa suicidou-se no dia seguinte.
Oscar Wilde casou-se, aos 29 anos, com Constance Lloyd, disposto a “curar” sua própria homossexualidade. Pouco depois, começa a viver romances com rapazes. Apaixonado pelo lorde Alfred Douglas, um jovem “maldoso, vaidoso e frívolo”, comete o erro de processar o pai do amante por calúnia. Não apenas perde o processo, como é condenado por “conduta indecente”.

Paul Verlaine já era um poeta famoso, feio e beberrão casado com Mathilde quando conheceu Rimbaud, um rapaz belíssimo e problemático que também escrevia versos. Com ele embarca num caminho de autodestruição que envolve sexo, bebidas e brigas. Num desses episódios, atira em Rimbaud e acaba preso por dois anos. Os dois sobrevivem. A poesia de Verlaine, não.

Liz Taylor e Richard Burton levaram para vida real as cenas de amor que viviam no filme Cleópatra. O filme foi um fracasso, mas o romance deu o que falar.  Entre drogas e bebidas, casaram-se e divorciaram-se várias vezes. O último casamento dos dois acabou bem antes da morte dele em 1984. A paixão pelo jeito, ainda existia.
John Lennon e Yoko Ono conheceram-se em 1966, no auge da Beatlemania. Aos 26 anos, ele era casado e pai de Julian. Ela, uma artista excêntrica de 33 anos. Quando Lennon se divorcia para casar com Yoko, a comoção entre os fãs é geral. O casal se envolve em campanhas pela paz.  Já o casamento, não era lá tão tão pacífico. 

A paixão, com todas as suas nuances, cores e horrores está retratada nesse interessante livro da jornalista espanhola Rosa Montero. Fruto de uma série de artigos publicados no jornal El País em 1998 e 1999, é um verdadeiro tratado sobre esse sentimento que envolve, engrandece e aniquila ao mesmo tempo. A partir de uma pesquisa minuciosa e um texto muito agradável de se ler, Rosa Montero revela histórias de amores célebres, das mais variadas épocas. Desmistificando o romantismo, tenta decifrar os mistérios de um sentimento que muitos confundem com o amor. Enquanto analisa diversos romances, provoca no leitor o questionamento sobre até onde vão os limites da paixão.Segundo ela,"uma alienação na qual a pessoa amada é apenas uma desculpa que nos damos para alcançar a emoção extrema de se apaixonar".
Lendo cada uma das 18 deliciosas histórias de Rosa percebi que não existe paixão calma, sólida, construtiva, equilibrada. Entre os casais retratados, existe, quase sempre, ansiedade, deslumbramento, obsessão, violência e ciúmes. Em cada história, há o desequilíbrio de um dos lados (ou de ambos), transformando amado e amante em cúmplices, num cenário onde um é a vítima e o outro, o carrasco(com eventuais trocas de papéis). Especificamente, nos tempos antigos, o cenário da promiscuidade e da loucura é ainda maior. Tolstoi enlouqueceu (e deixou a esposa histérica). Verlain atirou em Rimbaud, cego de paixão. Modigliani bebeu até morrer e sua esposa suicidou-se em seguida, grávida do segundo filho dos dois. São pessoas assim, que parecem saídas de um livro de ficção, que são desvendadas pela escrita sincera e impactante de Rosa. De tudo isso, ficam as histórias saborosas e muitas vezes aterradoras, de relacionamentos onde a paixão é tão forte, tão intensa, que não sobra espaço para o verdadeiro amor.

Rosa Montero nasceu em Madrid em 1951, estudou Jornalismo e Psicologia. Colabora com o jornal El País desde 1976.  Prêmio Nacional de Jornalismo (1980) e Prêmio Rodríguez Santamaria de Jornalismo (2005). Entre seus livros estão Histórias de Mulheres, O Coração do Tártaro, A Filha do Canibal e A Louca da Casa.
Paixões: Amores e Desamores que Mudaram a História. Rosa Montero. Editora: Ediouro, 189 páginas.