quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A(s) Vida(s) de Gertrude Stein.

Considerada um dos grandes nomes da literatura modernista, a escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) talvez tenha ficado mais conhecida por sua personalidade polêmica do que propriamente por sua obra. Com uma escrita original e, de certa forma, hermética, alguns de seus romances, como "Três Vidas" e "A Autobiografia de Todo Mundo" foram mais aclamados pela crítica do que pelo grande público. No entanto, não há como negar seu papel como mentora intelectual de jovens artistas e escritores do início do século XX, como Pablo Picasso, Henri Matisse, Guillaume Apolinnaire e Ernest Hemingway.
Com o livro "Duas Vidas: Gertrude e Alice", a jornalista tcheca Janet Malcom nos permite ir além dos escritos de Stein, para conhecer mais sobre sua vida, sua personalidade e sua relação com a companheira de décadas, Alice B. Toklas (1877-1967).
Dividido em três partes, o livro é uma reunião de ensaios originalmente publicados na revista The New Yorker. Com seu estilo ácido de escrever, Janet Malcom parte de um questionamento: "Como um casal de judias lésbicas e idosas conseguiu sobreviver às perseguições nazistas na França, permanecendo incólume durante toda a Segunda Guerra?"
A partir daí, por meio de pesquisas e entrevistas com biógrafos, amigos e especialistas na obra de Gertrude Stein, monta o quebra-cabeça do que seria a personalidade da escritora, que se autodenominava “um gênio”.
Filha de um rico imigrante judeu-alemão, era a caçula de cinco irmãos e perdeu a mãe aos 14 anos. Poucos anos mais tarde, com a morte do pai, o irmão mais velho, Michael, assumiu os negócios da família e Gertrude passou a viver de renda. Em 1903, parte com o irmão Leo para Paris e com ele começa a se interessar  e colecionar obras de arte moderna.
Teria início aí a lenda da casa da Rue Fleurs, 27, que virou ponto de encontro de artistas e intelectuais, muitos deles, expatriados americanos, que ela chamava “the lost generation”.  A recusa do irmão em reconhecer sua genialidade, fez com que os dois se afastassem para sempre. Quando Leo foi embora, Alice já havia entrado na vida de Gertrude.
Era um casal estranho. Em suas memórias, Mabel Rodge revela que "Gertrude era prodigiosa, quilos e quilos e quilos empilhavam-se em seu esqueleto". Quanto a Alice, "era franzina e morena, com lindos olhos cinzentos pesados.” A maioria dos amigos considerava Gertrude fascinante e charmosa, enquanto Alice era feia e apagada.
Em suas pesquisas, Janet descobre uma Gertrude acostumada a “ser cuidada por pessoas que sentiam-se incapazes de agir de outro modo. E a maior de todas as abelhas operárias era Alice Toklas”. Na relação desigual que mantinham, Gertrude se ocupava de sua genialidade e Alice, dos afazeres domésticos. Enquanto Stein deixava escorrer seus textos para o papel, era a companheira quem os revisava e datilografava. Diferenças à parte, é certo que as duas nutriam uma grande afeição mútua.
Um dado explorado no livro é a amizade de Stein por Faÿ Bernard, um professor colaboracionista nazista, mais tarde condenado à prisão perpétua por envolvimento na prisão, deportação ou morte de milhares de maçons durante a ocupação da França pelos alemães. Bernard foi fundamental para garantir a permanência das duas judias em Paris, sem serem importunadas. Ao que parece, elas não tinham ideia da gravidade das ações do amigo.
Se o retrato do artista se faz pela sua obra, em "Duas Vidas" Janet também se ocupa de analisar a escrita de Gertrude Stein. Para isso, consulta especialistas, como Edward Burns, William Rice e Ulla Dydo. Por sugestão destes, debruça-se sobre um de seus mais famosos livros, "The Making of Americans", um romance gigantesco de 925 páginas, que mesmo alguns amigos de Stein não conseguiram ler. Malcom o define como um livro “estranhíssimo” o qual, à medida que avança, “parece-se menos com um romance e cada vez mais com um pântano onde escritora e leitor se afundam”.
Os textos experimentais de Stein eram considerados densos demais, o que dificultava o interesse das editoras. Segundo Malcom, “ela não sabia inventar” e "escrevia quase que somente de suas próprias experiências". A aceitação pelo grande público só aconteceria aos 51 anos, com a publicação de "Autobiografia de Alice B. Toklas", que escreveu dando voz à sua companheira.
Com a morte de Gertrude de câncer, em 1946, Alice “cuidou do santuario da lenda literária e pessoal de Stein com a devoção de um cachorro à sepultura de seu dono”. "A lembrança de Gertrude é toda minha vida" escreveu ela a Donald Gallup, em 1947.
"Duas Vidas: Gertrude e Alice" apresenta um texto instigante, fruto de  um jornalismo investigativo da mais alta qualidade. Aos fãs de Gertrude Stein, deve ter incomodado bastante. Mas, para quem conhece pouco sobre sua vida e obra, desperta ainda mais a curiosidade de lê-la e (tentar) compreendê-la.

"Duas Vidas: Gertrude e Alice" - Janet Malcom.
Editora Paz e Terra.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Quase Memória, Quase Romance.

No ano de 1995 um pacote é deixado na recepção do hotel que Carlos Heitor Cony costumava frequentar. Alguém havia pedido que lhe fosse entregue em mãos. Imediatamente, ele reconhece no embrulho, na letra sobrescrita e no nó cuidadoso, traços muito familiares.
"Era a letra de meu pai. A letra e o modo. Tudo no embrulho o revelava, inteiro, total. Só ele fazia aquelas dobras no papel, só ele daria aquele nó no barbante ordinário (...)”
Porém, uma coisa não fazia sentido: seu pai, o jornalista Ernesto Cony Filho havia falecido dez anos antes.
Desse misto de lembrança e ficção, fantasia e emoção, ironia e carinho nasceu o romance Quase Memória.
Levando para casa o pacote, o autor dedica-se a observá-lo, sem coragem de abri-lo. "Queria apenas ficar sozinho, não exatamente para abrir o envelope, mas para pensar no assunto, embora se tratasse de assunto impensável".
É assim que aquele pacote fechado abre um baú de recordações.
Um aroma presente no embrulho o remete a um pote de brilhantina colocado pelo pai em suas bagagens de seminarista e que fora confiscado no primeiro dia pelo padre Cipriano, sob a alegação de ser "um emblema de luxúria".
Logo mais, ele sente no pacote o cheiro de manga, fruta pela qual seu pai era "esganado". E junto com este, lhe vem a lembrança do dia em que seu Ernesto, tentando roubar mangas do cemitério (segundo ele, as melhores que existiam), acaba se esborrachando em cima de uma carroça de flores, diante de parentes e amigos do morto. "Eu olhava para o chão, querendo ser enterrado também, junto com a minha vergonha."
Entre cheiros e imagens, o filho reconstitui, carinhosamente, momentos marcantes vividos com o pai. A técnica de fazer o embrulho, a perfeição do nó no barbante, o cacoete constrangedor que o levava a golpear o ar, cinco a seis vezes ao dia, como a se proteger de um ataque invisível. Sua sede de viver, de acordar todos os dias pensando em fazer algo novo. O costume de contar casos como se tivessem mesmo acontecido. E a sutileza de fabricar, com o máximo de apuro, qual fosse obra de arte, os balões que soltava aos céus em Noite de São João.
Vender rádios, fabricar perfumes, consertar antenas, criar galinhas. Fosse o que fosse, tudo o que Ernesto fazia, era com entusiasmo. E a cada nova empreitada, ânimo renovado. "Era do tipo que recebia um bom-dia como uma homenagem."
Durante a leitura das peripécias de Ernesto e seu filho mais novo, descobrir o que é verdade e o que é imaginação, torna-se desnecessário. Mais importante é entender que o remetente sem nome nada mais é do que a memória filial.
Ao fim desse "quase-romance", o pacote que encerra tantas lembranças, permanece intacto. E, ao que parece, cumpre sua missão, de restabelecer um elo entre pai e filho, uma derradeira aventura, um último segredo.

Quase Memória
Carlos Heitor Cony
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1995.
O romance marcou a volta de Carlos Heitor Cony, depois de mais de vinte anos afastado da literatura. Conquistou, em 1996, os prêmios Jabuti de Melhor Romance e de Livro do Ano, pela Câmara Brasileira do Livro.

domingo, 19 de setembro de 2010

Todos os Nomes de Saramago.


Um certo Senhor José, já chegado aos 50 anos, sem família, sem amigos, sem grandes ambições.
Este é o principal personagem do romance Todos os Nomes, do genial autor português José Saramago. Ironicamente, o único no livro que é efetivamente nomeado (os demais são identificados por expressões como “a senhora do rés do chão direito”, “a moça desconhecida” ou “o marido ciumento”).
Funcionário antigo da Conservatória Geral do Registro Civil, Senhor José mora numa casa contígua à repartição, que possui uma porta de acesso direto (mantida sempre fechada, por ordens superiores). Solitário e melancólico, preenche seus dias de folga colecionando recortes de jornais e revistas sobre a vida de pessoas famosas: políticos, atores, músicos, banqueiros ou assassinos.

Certo dia, tem a ideia de acrescentar a esses recortes dados mais precisos: o nome do pai, da mãe, a data do batizado. Como funcionário do Registro Civil, tem a faca e o queijo na mão: basta abrir a porta proibida. Decide entrar no prédio na calada da noite para recolher as preciosas informações.
"Imagine quem puder o estado de nervos, a excitação com que o Senhor José abriu pela primeira vez a porta proibida, o calafrio que o fez deter-se à entrada como se tivesse posto o pé no limiar dessa câmara onde se encontrasse sepultado um deus cujo poder, ao contrário do que é tradicional, não lhe adviesse da ressurreição, mas de tê-la recusado”.

Da primeira transgressão para as demais, será  um pulo. Quando, em meio aos verbetes surrupiados, aparece por acaso, a ficha de uma moça de 36 anos (uma ilustre desconhecida), ele é tomado imediatamente pelo desejo de descobrir mais sobre a mulher misteriosa. “Saber o nome dos pais, dos padrinhos, a rua, o número e o andar onde ela viu a luz e sentiu a primeira dor”. É esse sentimento que irá promover uma reviravolta em sua vida. "É absurdo, mas já era tempo de fazer algo absurdo na vida".
Por essa obsessão, ele irá mentir, fingir, enganar, correrá riscos, adentrará feito um gatuno a escola onde a menina estudou, visitará a casa onde ela viveu. De funcionário austero, torna-se invasor furtivo da casa (e da vida) alheia. Usando de falsa credencial, irá pressionar os novos moradores a lhe revelarem o que (não) sabem sobre o paradeiro da moça.
“Não seria mais fácil buscar na lista telefônica ?”– sugere a senhora do rés do chão direito.
Mas Senhor José não quer a vitória fácil. Prefere montar o quebra-cabeça (outro passatempo de solitários). E é nessa busca cheia de riscos que ele ganha mais gosto pela vida.
A narrativa de Todos os nomes assemelha-se a uma teia de aranha, onde quanto mais se avança, mais se sente enveredar por caminhos quase sem volta. Como a repartição onde trabalha, a jornada de Senhor José é um labirinto de informações onde é fácil se perder. Semelhante ao fio de Ariadne, acompanhamos a saga do personagem, conduzidos pela escrita singular de Saramago. Feito novelo que se desenrola, mas não desata, ele irá nos prender até o fim. Haverá surpresas nessa busca, lembrando que a vida é feita delas. Caberá ao leitor descobri-las.
Em certo trecho do livro, Senhor José analisa: “Alguns dos que nascem, entram nas enciclopédias, nas histórias, nas biografias, nos catálogos , nos manuais, nas coleções de recortes. Os outros são como a nuvem que passou sem deixar sinal de ter passado, se choveu, não chegou a molhar a terra. Como eu.”
Todos os Nomes é um romance sobre pessoas comuns que, em sua existência, "não chegam a molhar a terra", mas que nem por isso deixam de viver sua história.
 
José Saramago
Publicação: 1997
Editora: Companhia das Letras

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Os Mistérios de Agatha.


“Para ela, era importante que o mundo fosse ordenado, correto, tudo em seu devido lugar: o universo de sua infância. Preocupava-se com a aparência, embora a sua própria não fosse das mais agradáveis. Aos 40 anos começou a engordar e transformou – se numa matrona, de seios fartos e quadris avantajados. Os dentes eram ruins e, por isso mesmo, nunca aparecia sorrindo nas fotografias”. Quem conta isso é Rosa Montero no livro A Louca da Casa. E a curiosa personalidade retratada é Agatha Christie, uma das maiores escritoras de romance policial de todos os tempos, conhecida como “A Rainha do Crime”.
Hoje, 15 de setembro, completam-se 120 anos do nascimento dessa escritora única,  nascida Agatha Mary Clarissa Christie. Tendo crescido durante a época vitoriana, não chegou a freqüentar a escola. Embora tenha aprendido a ler sozinha, aos quatro anos, memorizando palavras, foi educada em casa. Passou a infância e adolescência lendo histórias de detetive, como as de Sherlock Holmes e de autores como Edgar Alan Poe. Depois inventava mistérios com sua irmã Madge.

Um desafio de Madge a levou à literatura profissional. Quando esta lhe disse que ela jamais jamais seria capaz de escrever um romance policial, Agatha  levou tão a sério que escreveu “O Misterioso caso Styles", obra que foi publicada em 1920. Desde então não parou mais. 
Foram mais de 80 livros, que venderam mais de 4 bilhões de cópias no mundo. É a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare.
Um de seus personagens mais fascinantes é Hercule Poirot (inspirado em um vizinho, de baixa estatura e bigode bem cuidado), cuja característica mais marcante é a ironia. Outra figura popular é a Miss Marple, uma adorável velhinha britânica que vive no campo, mas parece estar sempre por perto quando acontece um crime. 
Conheço Agatha Christie há muito, muito tempo, desde criança, talvez.
Desde então tenho fases de lê-la aos montes, um livro atrás do outro, envolvida nas histórias, nos suspenses, nos personagens exóticos e engraçados, nas aventuras de Hercule Poirot e Miss Marple.
Depois, acomodados nas prateleiras, seus livros (muitos) esperam que se acenda novamente meu desejo de  viajar pelas tramas da autora.
Um desses momentos aconteceu este ano, em que li, em um mês, cinco de seus livros: "Convite para um Homicídio", "Treze à Mesa", "A Mansão Hollow", "O homem do Terno Marrom" e "Um Brinde com Cianureto". Uns gostei mais do que outros, mas analisando criticamente, percebi ali, não apenas casos mirabolantes de assassinatos, envenenamentos, cenas macabras ou dramáticas; percebi um estilo próprio e uma habilidade para contar histórias que foge à narrativa pura e simples. Não existe em seus livros apenas um caso a ser contado, mas descrições deliciosas dos personagens, dos lugares, dos hábitos adotados na época. Ela realmente nos faz viajar. Peguei-me por várias vezes analisando um por um os personagens para descobrir quem seria o assassino. Na maioria das vezes, não consegui. Mas esta é justamente a graça de se ler um romance policial (gênero no qual ela é imbatível): a surpresa que nos reserva o final.
Certa vez, ela revelou que começava seus livros pelo assassinato. Depois estudava a forma como foi cometido, para espalhar pistas verdadeiras e falsas no decorrer dos capítulos. Outra dica da autora: o importante em um romance policial é que o detetive não deve saber nunca mais do que o leitor.
Uma inglesa no verdadeiro sentido da palavra, graciosa e gentil, porém contida, reservada e misteriosa, é assim que imagino Agatha. Esse post é uma homenagem aos 120 anos de nascimento dessa escritora tão singular que tem lugar certo na literatura mundial. E na minha estante , com certeza. Obrigada, Agatha.

Agatha Christie faleceu em 12 de janeiro de 1976.