quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Discurso do Rei (Mark Logue & Peter Conradi)

Um rei com um grave problema de gagueira. Um país em véspera da Segunda Guerra Mundial. E um autodidata terapeuta vocal com metodos alternativos e eficazes. Foi assim que o quase desconhecido Lionel Logue salvou a família real inglesa nas primeiras décadas do século XX. Essa é a história verídica contada no livro  
O Discurso do Rei: Como Um Homem Salvou a Monarquia Britânica, escrito pelo neto de Lionel, Mark Logue com a ajuda do jornalista Peter Conradi. Com base nos diários e arquivos de Logue, eles reconstroem a relação de surpreendente intimidade entre dois homens muito diferentes.
Gago desde os 4 anos de idade, Albert, filho do rei britânico, não consegue se livrar dos constrangimentos que acompanham suas manifestações verbais públicas. Depois de passar, sem resultado, por vários especialistas, ele já não tem tanto interesse em novas tentativas, até porque seu irmão mais velho, Edward VIII, é o primeiro na linha sucessória para assumir o trono no lugar de seu pai. No entanto, já casado e com duas filhas, Albert atende o pedido de sua esposa Elizabeth (mãe da atual rainha Elizabeth), de tentar um novo tratamento com um fonoaudiólogo nada convencional, Lionel Logue. O contato inicial é tenso e Albert não se sente à vontade com a terapia alternativa. Mas, aos poucos, com os primeiros resultados positivos, passa a confiar no profissional. É quando ele se verá diante de uma situação absolutamente inusitada: seu irmão Edward, que assumira o trono por ocasião do falecimento de seu pai, abdica da coroa para casar-se com uma norte-americana divorciada. Fatalmente, Albert deverá assumir seu lugar, o que significa não apenas tornar-se rei, mas  ter todos os olhos e ouvidos do reino atentos a seus movimentos, atos e palavras. O momento não poderia ser mais delicado: vésperas da Segunda Guerra Mundial. Como poderia Albert, nomeado rei George VI, gaguejar diante de seu povo justamente na hora em que  mais se espera determinação e firmeza?
O verdadeiro Rei George VI, com filhas e a rainha Elizabeth I.
         Juntamente com a terapia, que envolve exercícios e técnicas incomuns, cresce a amizade entre Albert e Lionel.  O terapeuta ajuda a aumentar a  autoestima do rei e constrói uma segurança  nunca alcançada. O momento máximo de vitória acontecerá num belo discurso proferido com firmeza, sonoridade e clareza para uma população emocionada.

      

O verdadeiro discurso do rei.


Em 2010 foi lançado o filme "O Discurso do Rei", que deu a Collin Firth o Oscar de melhor ator por sua auação como o rei George VI.

Livro: O Discurso do Rei
Editora: José Olympio
Autor: MARK LOGUE & PETER CONRADI
Ano: 2011
Edição: 1
Número de páginas: 192

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Leila Diniz, Uma Revolução na Praia.


Para quem nasceu depois dos anos 70, o nome Leila Diniz remete a apenas algumas imagens, frases soltas, colagens de momentos. Uma foto grávida de biquíni, mostrando o barrigão, numa época em que as mulheres se escondiam. E uma célebre entrevista concedida ao Pasquim na qual, pontuada por palavrões, expunha sua visão sobre amor, sexo, homem e mulher, relacionamentos, liberdade e individualidade. O restante do que seria sua vida, lhe foi roubado numa queda de avião em 1972, aos 27 anos de idade. Já era mãe de Janaína, do seu casamento com Ruy Guerra e estava voltando de um Festival de Cinema na Austrália. 

No livro "Leila Diniz, uma Revolução na Praia", publicado em 2008 pela Companhia das Letras, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos conta a história dessa dentucinha rebelde cuja personalidade solar desancou o machismo e desbancou o falso moralismo, dando um novo colorido aos comportados anos 60. Na obra, ele faz um mergulho na trajetória de Leila, desde a infância nada convencional até suas aparições no cinema e na televisão, após uma curta passagem pelo teatro. São histórias divertidas, descompromissadas e cheias de vida, como ela  é lembrada por todos que a conheceram.

Docemente desafiadora, Leila era, definitivamente, uma mulher fora dos padrões. Em plena ditadura militar, falava o que pensava e vivia do jeito que queria, escandalizando os mais moralistas. Nem poderia ser diferente, com a criação que recebeu. Seu pai, Newton Diniz, comunista de carteirinha, pregava o materialismo e enchia a estante do quarto dos filhos com a coleção de Romances do Povo, editada pelo partido.
A mãe biológica, Ernestina, nem chegou a criá-la. Ficou doente de tuberculose quando ela tinha apenas sete meses. Internada um sanatório, ao voltar, curada, o pai de Leila já morava com outra mulher, Isaura. Esta sim, a criou como filha - e ela só descobriu a verdade aos 10 anos de idade. Aluna mediana, que não se dava bem com regras e proibições, Leila era magrinha e nem de longe sugeria o furacão que abalaria o Brasil poucos anos depois. Antes de chegar ao 3° ano, começou a dar aulas para crianças como assistente. Professorinha revolucionária era a favor da educação com liberdade e instituía inovações como o dia da troca da merenda, numa tentativa de socializar a refeição. Mas quando os pais dos alunos impediram a matrícula de uma menina com Síndrome de Down, ela subiu nas tamancas e pediu demissão. Já havia conhecido Domingos de Oliveira, seu primeiro relacionamento sério. Se é que se podia falar em relacionamento sério com a rebelde Leila.

Ela ainda não tinha 18 anos quando bateu à porta de Domingos numa noite de Natal, com cabelos presos em maria-chiquinha. Ficara sabendo que ali haveria uma festa. Aos 25 anos, Domingos largara a faculdade de engenharia para trabalhar com cinema.  Diante da aparição de Leila, sugeriu que ela ajudasse a receber os convidados. Ela não só ficou, como se enturmou com todo mundo e às cinco da manhã, quando ele se ofereceu para levá-la em casa, respondeu, sonolenta: - Não, quero ficar. O relacionamento durou dois anos e meio e, no final, com o coraçao apertado, ele escreveu e dirigiu para ela “Todas as Mulheres do Mundo”. No filme, uma preciosidade em preto e branco, criticadíssimo na época, como sendo alienante, ela era ao mesmo tempo a atriz e o personagem.

Do cinema, ela parte para a TV, no auge da Era Magadan (Gloria Magadan, autora cubana cujas histórias eram repletas de duques, princesas e espadas ). Nas TVs Globo, Excelsior e Rio, Leila atou em diversas novelas, como Ilusões Perdidas (65), Eu compro esta mulher (66) e o Sheik de Agadir (67). Essa última se passava no deserto da Arábia e foi filmada na restinga da Marambaia. A coisa era tão fantasiosa que tinha até um sheik de olhos azuis, vivido pelo galã Henrique Martins. 

“Nada fazia nexo, mas novela boa devia ser assim, distanciada da realidade.” – garante Marieta Severo, que tornou-se a melhor amiga de Leila, que vivia na época um caso de amor com o sheik da história.  Como lembra a atriz Ana Maria Magalhães, era um casal "absolutamente improvável, um choque cultural". Com um detalhe: ele era casado e assim permaneceu durante os três anos que durou o romance.

Outras atrizes recordam o jeito descontraído de Leila: “Ela foi a primeira mulher a trabalhar sem sutiã” – revela Marília Pera. “Todo mundo comentava, mas ela não estava nem aí.” “Ela falava palavrão aos montes no estúdio e nenhuma atriz fazia isso na época” – lembra Irene Ravache. "Mas tudo passando longe de qualquer vulgaridade.”


A moderninha Leila, no entanto, foi barrada na primeira telenovela do país de argumento contemporâneo: Véu de Noiva, de Janete Clair. A justificativa da autora, confirmada por Daniel Filho, é de que o público misturaria a pesonagem com a vida pessoal da atriz, na época mais comentada que sua atuação.

Em menos de três décadas, Leila viveu intensamente os personagens que escolheu - no palco ou fora dele.  Sem se levar muito a sério, defendeu suas verdades. Mesmo inofensiva, foi tachada de  subversiva, por não ter medo de expressar suas opiniões.   Foi musa do amor livre e acabou  imortalizada por uma imagem que não podia ser mais feminina e maternal. Contada assim, em 265 páginas, sua história daria um filme. E deu. Foi filmado em 1987, com direção de Luiz Carlos Lacerda e  Louise Cardoso no papel principal. Mas a lembrança que fica mesmo de Leila é aquela do início desse texto, grávida, de barrigão, na praia, linda, livre e feliz.


Leila Diniz, Uma Revolução na Praia.
Joaquim Ferreira dos Santos
Coleção Perfis Brasileiros
Companhia das Letras

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Casamento (Nelson Rodrigues)

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. 
Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino". 
(Nelson Rodrigues)

Tão criticado quanto incompreendido. Tão amado quanto odiado. Para uns, um pervertido, para outros um reacionário. Em se tratando de Nelson Rodrigues, impossível mesmo é ficar indiferente à sua obra, seu talento e sua personalidade. Tanto que, poucas décadas após sua morte e a caminho de seu centenário, a história tratou de colocá-lo em seu lugar de direito, como um dos maiores cronistas e dramaturgos brasileiros.
Com seu estilo trágico e passional, em sua segunda peça, Vestido de Noiva, encenada em 1942, praticamente reinventou o gênero, dando início ao moderno teatro brasileiro. Batizou, assim, as peças carregadas de tragédias burguesas, que desvendam a hipocrisia existente no seio da tradicional família brasileira: histórias rodrigueanas.
Fruto de uma vida marcada por dramas pessoais, o texto de Nelson é doído, rasgado, irônico, descarado. Escancara o que não se diz, penetra os pensamentos mais recônditos e coloca às claras o que a sociedade – daquele tempo e dos dias de hoje - insiste em esconder: a esposa adúltera, o pai pervertido, o padre hipócrita, a adolescente maliciosa. Colocando em cheque crenças e valores, põe na boca de seus personagens aquilo que ele, Nelson, tem vontade de bradar aos quatro cantos: "Não existe família sem adúltera". "Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria." "O ato sexual é uma mijada." "Só o cinismo redime o casamento." As famosas pérolas de Nelson Rodrigues.
Publicado em 1966, "O Casamento" foi o único romance do autor escrito para ser publicado diretamente em livro e não em crônicas de jornais. Bem ao estilo de Nelson Rodrigues, nada melhor do que uma instituição sagrada para servir de palco para uma história arrebatadora de desencontros, traumas, hipocrisia e tabus. Pouco tempo depois de lançado o livro seria censurado pelo Ministro da Justiça do Governo Castelo Branco, por ser considerado um "atentado" contra a "organização da família". A essa altura, porém, já alcançara grande sucesso entre os leitores.
Na história, os temas preferidos do autor- as mazelas do casamento, a homossexualidade no seio familiar, a traição, a perversão, desfilam um a um diante do leitor.
O personagem principal, Sabino Uchoa Maranhão, é um pai de família sério e respeitável, às voltas com o casamento da filha caçula, Glorinha. "Magro, de canelas finas, diáfanas, peito cavado, costelas de Cristo", Sabino é perseguido por lembranças do pai em seu leito de morte, "com o pijama dourado de fezes". "O pai queria que ele fosse um homem de bem e desde então a vontade do defunto o acompanhava por toda parte".
Homem recatado, não dizia certas palavras e "o ato amoroso era em silêncio". De rosto atormentado e olhar intenso, Sabino não consegue esconder a preferência pela filha mais nova. "Eu daria a minha última camisa à minha filha".
Acreditando ser um homem de virtude, mantém um casamento morno com Eudóxia, com quem se casara "porque era impotente com prostitutas". Sua aparente respeitabilidade nao impede que às vésperas das núpcias da filha convide sua secretária, dona Noêmia para um encontro furtivo. Na ocasião, não esconde o desprezo pela reação da funcionária: "A senhora não soube nem fingir uma resistência."
A trama central de "O Casamento" se passa nas 48 horas que antecedem o casamento de Glorinha e Teófilo. O médico da noiva, senhor Camarinha procura Sabino para revelar que flagara o rapaz no consultório beijando seu assistente. O dilema se instala em sua mente: contar o acontecido à filha é cancelar um casamento. Não contar é levá-la a um destino infeliz. "Um pai nao tem o direito de ignorar a pederastia de um genro."
Com dúvidas sobre o que fazer, tenta se aconselhar com o monsenhor Bernardo, velho amigo da família e que viu a menina crescer. Sem conseguir revelar o motivo da consulta, acaba se confessando com o padre sobre um episódio vivido na  infância.  É quando o religioso dá um conselho desconcertante: “Assuma sua lepra”.

A partir daí, uma série de acontecimentos vem à tona, envolvendo a futura noiva, sua amiga Maria Inês, o filho do Dr.Camarinha, Antonio Carlos, viciado em drogas, o assistente do médico, Zé Honório e seu pai moribundo, e finalmente uma contundente revelação de Sabino a sua filha.
Em "O Casamento", tudo se mistura. Sob a aparente vida familiar acima de qualquer suspeita, há perversão sexual, homossexualismo, adultério e incesto. Cada personagem, com seu drama e seus demônios particulares. Curiosamente, a figura menos presente de toda a trama é o noivo de Glorinha, com o suposto flagrante homossexual, pois por trás desse incidente desenrolam-se episódios muito mais marcantes, com segredos e perversões reveladas, suicídios e assassinatos.
Porém, como diz o Dr. Sabino, "o importante é o casamento".

O Casamento
Publicado em 1966, pela Editora Guanabara
Relançado em 1992, pela Companhia das Letras
259 páginas

O autor: Nelson Rodrigues foi o mais revolucionário personagem do teatro brasileiro. Com uma vida marcada por tragédias familiares e com saúde frágil, sempre provocou polêmicas com sua obra em crônicas e no teatro e por suas inigualáveis frases. Chamado, ao mesmo tempo, de imoral e moralista, reacionário e pornográfico, escandalizava o público e a crítica, encenando nos palcos a vida cotidiana do subúrbio do Rio de Janeiro. Começou como repórter policial e cronista, passando a escrever para o teatro nos anos 40. Considerado o fundador do moderno teatro brasileiro, escreveu 17 peças, tendo várias delas interditadas pela censura. Entre seus maiores sucessos estão Vestido de Noiva - 1942, Os Sete Gatinhos -1958, Boca de Ouro - 1960 e Toda Nudez será castigada -1965. É considerado com justiça o maior dramaturgo brasileiro. Nasceu no Recife,  PE, em 23 de agosto de 1912 e faleceu no Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1980.

terça-feira, 6 de março de 2012

Por que ler Gabriel García Marquez.


Porque esse colombiano é considerado pela crítica literária mundial, como um dos mais importantes escritores do século XX.
Porque escreveu alguns dos mais importantes livros da literatura contemporânea.
Porque foi o criador do realismo mágico.
Porque seu mais famoso livro, "100 anos de Solidão", publicado em 1967, tornou-se um marco na literatura latino-americana: a segunda obra mais importante da literatura hispânica, depois de "Dom Quixote de la Mancha".
Porque esse mesmo livro  foi traduzido em 35 idiomas com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.

Porque em 1982 ganhou o prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.
Por causa de Macondo.
Pela saga da família Buendía.
Pelo "Relato de um Náufrago" e pela "Notícia de um Sequestro".
Pela paixão tardia de um ancião de 90 anos por uma adolescente virgem.
Por causa do amor de Firmina Dazo e Florentino Ariza, que demorou 53 anos, 4 meses e 11 dias para se concretizar.
Pela morte anunciada de Santiago Nazar.
Porque hoje ele completa 85 anos.