terça-feira, 2 de abril de 2013

Eternamente crianças.


Em homenagem ao Dia Internacional do Livro Infantil, o blog traz hoje 10 grandes livros voltados à infância. A maior parte deles, é de livros que realmente são um sucesso entre as crianças no Brasil e no mundo. Mas também há os que fizeram fazem parte de minha memória afetiva de infância. Todos vocês, que gostam de ler, certamente ou já leram ou irão presentear uma criança de sua vida com um destes livros. Boa leitura, crianças.

1) Reinações de Narizinho - Monteiro Lobato (várias editoras) 
Monteiro Lobato leva, com justiça, o título de um dos maiores, senão o maior escritor brasileiro no gênero infantil. Reinações de Narizinho tornou-se um clássico da literatura infantil nacional, atravessando e encantando gerações. O livro reúne seis das onze histórias que começaram a ser escritas por Lobato em 1920, e levaram cerca de uma década para ficarem prontas.Neste livro, Narizinho, a neta de Dona Benta, visita o Reino das Águas Claras e leva com ela, a boneca de pano Emília. Com a chegada de Pedrinho, primo da menina "do nariz arrebitado", que veio passar férias no Sítio do Picapau Amarelo, as aventuras ficam ainda melhores. O tempo passa, mas o encanto de Narizinho e sua turma permanece.



2) Memórias da Emília  - Monteiro Lobato (várias editoras)

Livro infantil publicado pela primeira vez em 1936, pela Companhia Editora Nacional, em São Paulo, com ilustrações de Belmonte.
Emília,  que é uma boneca muito da metida, resolve contar as suas memórias, ou melhor, "mentir" as suas memórias pois, afinal, ela acha que aquele que escreve sobre si próprio "tem um pé" na enganação, na mentira. Segundo ela, se a pessoa contar o que realmente aconteceu na sua vida, todos iriam perceber que a vida é igualzinha à de todo mundo. Para ajudá-la a realizar seu intento, Emília chama o Visconde de Sabugosa, ela ditaria as memórias e o Visconde as escreveria. Muitas aventuras esperam o leitor nesse clássico eterno. (Fonte: Wikipedia)


3) Bisa Bia, Bisa Bel (Ana Maria Machado)

Uma de nossas maiores escritoras infantis, neste livro Ana Maria Machado  cria um diálogo entre Isabel - ou melhor, Bel - e sua avó - Bisa Bia - e, depois, com sua futura bisneta. Uma mistura encantadora do real e do imaginário, levando o leitor a perceber as mudanças no papel da mulher na sociedade. Esse diálogo fica ainda mais divertido quando surge uma terceira "voz": a Neta Beta, uma menina do futuro, que fala de muitas mudanças que ainda estão por vir. Um clássico da literatura para crianças.


4) O Menino do Dedo Verde – Maurice Druon (1957)

Tistu é um menino feliz, que vive na cidade chamada Mirapólvora numa grande casa, a Casa-que-Brilha, com o Sr. Papai, Dona Mamãe e o seu querido pônei Ginástico.
Eles são ricos, pois o Sr Papai tem uma fábrica de canhões. Para grande decepção de todos, Tistu dorme nas aulas e o Sr Papai resolve fazer com que o menino aprenda as coisas vendo-as e vivenciando-as. As aulas serão com o jardineiro Bigode e com o gerente da fábrica de canhões, o Sr Trovões. Na primeira aula, o jardineiro Bigode descobre que Tistu tem um dom fantástico: ele tem o dedo verde e onde ele tocar nascerão flores. Bela fábula com linda mensagem sobre o que realmente importa na vida.


 5) A Arca de Noé - Vinícius de Moraes
Livro de poemas de Vinicius de Moraes para crianças. Histórias com a magia que só o poetinha poderia oferecer, que ganharam deliciosas versões musicais. Quem não se lembra de  “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada” ou “Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá”?
Editora: Companhia das Letras



6) Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou por lá - Lewis Carrol (várias editoras)


Passados 150 anos da publicação original, a clássica história de uma menina chamada Alice, que entra em uma toca atrás de um coelho falante e cai em um mundo de fantasia, continua popular. Edição de bolso, com capa dura e ilustrações originais de John Tenniel. Publicado pela Editora Zahar, Aventuras de Alice no País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.


7) Histórias à Brasileira 3 - Ana Maria Machado (Companhia das Letrinhas)
“O Pavão Misterioso”, “Cabra Cabrês” e “O Pescador e a Mãe-D’Água” são algumas das histórias da tradição oral brasileira recontadas neste livro de Ana Maria Machado, uma das mais premiadas escritoras brasileiras de literatura infantil (em 2000, recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, uma espécie de Nobel da literatura infantil). Terceiro volume da série que mostra às crianças um universo imaginário e traços socioculturais fáceis de se identificar.  (Fonte: site da Companhia das Letras)
Ilustrações de Odilon Moraes


8) As Coisas – Arnaldo Antunes
Integrante do Grupo de Rock Titãs, Arnaldo Antunes é um poeta em tudo que faz. Neste livro, ele faz uma brincadeira literária, explorando os sentidos e significados das palavras, com se na visão de uma criança. O resultado é um belo livro para todas as idades. Ilustrado por sua filha Rosa, então com 3 anos. Prêmio Jabuti de Poesia, em 1993.


 9) Só Meu - Mario Quintana (Ed. Global)


Mário Quintana, poeta gaúcho, é um escritor que agrada todas as idades. Neste livro ele fala com a gente miúda, numa seleção de poemas e frases feita por sua sobrinha Elena Quintana, que foi sua secretária por décadas. O projeto gráfico, com ilustrações de Orlando, reserva espaços vazios para as crianças poderem encher de desenhos que, conforme se sugere no início do livro, passarão também a fazer parte dos poemas. Fonte: Site Crescer (a partir de cinco anos)

10) Ou isto ou aquilo – Cecília Meirelles

Um dos mais belos clássicos da poesia brasileira, 'Ou isto ou aquilo' aborda os sonhos e as fantasias do mundo infantil - a casa da avó, os jogos e os brinquedos, os animais e as flores, tudo ganha vida nos poemas de Cecília Meireles.As crianças de Cecília são de verdade, têm sonhos, fazem manha, criam seu próprio mundo, com todo o lirismo com que a autora nos dá presenteia. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O austríaco que amou o Brasil. Stefan Zweig, Uma Biografia.


Um homem sério, introspectivo, obcecado pelo saber. Atormentado por fantasmas interiores e desejos nem sempre confessáveis. Um homem que amava mais o processo de criação do que a própria obra. Que se sentia sempre menor entre seus pares. Por trás de uma aparência serena e circunspecta, trazia na alma um turbilhão de paixões. Infatigável na busca de conhecimento, não queria apenas saber mais e mais. Queria transmitir. Um pacifista por natureza. E um eterno insatisfeito.
Esse é o homem retratado pela escritora francesa Dominique Bona na obra  "Stefan Zweig - Uma biografia", publicado pela Editora Record, em 1996.
Nele, a autora faz uma cuidadosa análise da vida do maior autor austríaco, da juventude tranquila em Viena até a maturidade, com intensa produção intelectual, que o tornou um dos escritores mais lidos do mundo.
Filho de uma abastada família judia, Stefan Zweig (1881-1942) fez da primeira metade de sua vida uma viagem constante, passando temporadas hospedado na casa de amigos intelectuais. 
Em 1902, publicou sua primeira obra, Silberne Saiten (Cordas de Prata), uma coletânea de poemas. Desde então, não parou mais de produzir. Traduziu para o alemão obras de Keats, Morris Yeats e Verlaine. Foi amigo de Rainer Maria Rilke, Roman Rolland, Rimbaud,Thomas Mann e Sigmund Freud. Tendo por estilo as narrativas curtas, especializou-se em novelas, gênero onde se revelou um verdadeiro gênio. 
Stefan Zweig e Friderike
Escritor profícuo, em 60 anos de vida produziu inúmeras obras, entre novelas, biografias, peças de teatro, óperas e incontáveis palestras na Europa e América. Entre algumas de suas principais obras estão "Cartas de uma desconhecida"(1922 ), "24 horas na vida de uma mulher" (1922), Angústia (1925), Confusão de Sentimentos (1927) e Amok (1922). Como autor dramático, obteve sucesso com peças como "A Metamorfose da Comédia" e "A Mansão à Beira-mar". Muitos de seus romances foram transformados em filmes, até hoje considerados atuais.
Já o homem Stefan Zweig era, antes de tudo, um curioso da natureza humana.
Zweig e Lotte
Colecionava romances e, aparentemente, não se entregou verdadeiramente a nenhum. No entanto, casou-se duas vezes. A primeira, em 1915, com uma escritora divorciada de olhos negros, Friderike Maria Von Winsternitz, mãe de duas filhas. E a segunda, em 1939, com Charlotte Altman, polonesa radicada na Inglaterra, 26 anos mais nova, de saúde frágil, que se tornou sua sombra. Mesmo casado, nunca renunciou a outros romances, que chamava “episódios”. Paixão mesmo, só pelos livros. E pela alma humana. Na amizade, entretanto, era o mais fiel dos amigos.
A vida tranquila de Stefan começou a ruir com a ascensão do nazismo.  Quando, em 1938, a Alemanha anuncia oficialmente a anexação da república austríaca e a converte numa província do III Reich, um estupefato Zweig percebe que o mundo no qual acreditava não mais existia.
“Seus livros são retirados das livrarias e bibliotecas, proibidos de ter qualquer publicidade e de ser comentado na imprensa.”
A casa de Petrópolis
Ele renuncia à nacionalidade austríaca e torna-se cidadão britânico. Sem pouso certo, passa a percorrer países defendendo a causa pacifista. “Sempre com a pena na mão, entre um artigo e um folhetim, entre a redação de uma conferência e uma tradução, tudo o que faz não tem senão um objetivo: a paz entre as nações.”
Deixando a Inglaterra, o escritor mora na França, em Nova York e finalmente no Brasil, onde desembarca em 1941, com sua segunda esposa, Lotte. Decide viver na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, que lembrava sua terra natal. Encantado com o povo, a natureza e o potencial do país, aqui escreve "Brasil, País do Futuro."

 Mas a guerra e o nazismo se aproximavam cada vez mais do Brasil, governado por Getúlio Vargas. E no lugar que ele considerava "um paraíso", em 23 de fevereiro de 1942, Stefan Zweig decide colocar fim à vida, ao lado de sua esposa Lotte. O mundo em que vivia já não tinha lugar para ele.


Stefan Zweig - Uma Biografia
Dominique Bona
Editora Record
384 páginas

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Noites Tropicais. Solos, improvisos e memórias musicais (Nelson Motta)


Em 1958, Nelson Motta tinha apenas 14 anos, quando ouviu pela primeira vez num radinho de pilha, João Gilberto cantar Chega de Saudade. "Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido." E o menino que só gostava de ler, escrever, ouvir e contar histórias viu a música entrar em sua vida "para sempre". 
Décadas depois, ele destila um conhecimento sobre fatos, estrelas e mitos do mundo da música brasileira, inversamente proporcional ao seus 1,67m. E parece ter estado presente exatamente na hora e no local onde tudo aconteceu nos últimos 50 anos. 

Viu nascer a Bossa Nova, o Tropicalismo, a Jovem Guarda, tomou drinques com Vinícius, namorou Elis, participou dos famosos Festivais da Canção, foi íntimo de Tim Maia, comandou a lendária discoteca Dancin´Days, criou trilhas para novelas da Rede Globo (quem não lembra da introdução grudenta "Abra suas asas...Solte suas feras..."?) e deu a maior força para o rock brasileiro. Isso pra ficar só num resumo da produção desse compositor, crítico musical, produtor artístico, revelador de talentos e por aí vai. 
Essa capacidade de estar presente onde tudo acontece (o lugar certo na hora certa) fez dele uma testemunha ocular de fatos relevantes em nosso cenário musical, que ele conta com bom-humor e elegância em "Noites Tropicais. Solos, improvisos e memórias musicais", lançado em 2000 pela Editora Objetiva. 
Enriquecido por belas fotos em preto e branco, o livro é uma espécie de guia para o leitor que quer saber quem é quem nesse segmento onde o Brasil, país do futebol também é um verdadeiro craque. 
Da primeira à última página, qual um show que não pode parar, ele conta tudo que viu, ouviu e produziu em quase meio século, usando sua posição privilegiada para apresentar, um a um, quem fez história no fértil terreno musical do país.

Entre outros (muitos outros) assuntos ficamos sabendo como Carlos Imperial, de chinelos e camisa havaiana, um belo dia chamou ao palco do seu programa "Clube do Rock", que comandava na extinta TV Tupi, um conterrâneo capixaba, que "imitava escancaradamente João Gilberto". Seu nome? Roberto Carlos. 



Acompanhamos o surgimento de uma moça baixinha que cantava abrindo os braços, com um "horrendo capacete de laquê". O que não importava muito, pois, aos 18 anos, Elis Regina já cantava "uma barbaridade".
Passamos pelos Festivais da Record, que lançaram nomes como Chico, Caetano, Gil, Elis e Geraldo Vandré. Caetano já estava ficando famoso por sua participação no programa "Essa noite se improvisa", quando encanta o público com sua sonora e "caleidoscópica" Alegria Alegria. Que, como lembra Nelson Motta, "não falava de alegria e sim de liberdade".
Gil , acompanhado pelos alegres e anárquicos Mutantes - a então lourinha Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sergio Antunes - atraem aplausos pela "cinematográfica" Domingo no Parque. E  Chico Buarque, com seu ar de bom moço é ovacionado por sua girante "Roda Viva". Pouco tempo depois, Chico driblaria a censura inúmeras vezes com versos cada vez mais politizados nos anos negros da ditadura. 
Mas, como relata Nelson Motta, o Festival também fez história com as vaias da multidão, que feriam quase mortalmente jovens artistas em busca de seu lugar ao sol, como o próprio Caetano que não conseguiu seguir adiante com sua amalucada "É proibido proibir". E é claro, Sergio Ricardo que, recebendo do auditório uma ensurdecedora vaia por sua "Beto bom de bola" (que o público detestara), não apenas desistiu de cantá-la como destruiu o violão no palco e o lançou em direção à plateia: "Vocês venceram".
Mas o show tem que continuar e nas páginas seguintes descobrimos o homem espetáculo Simonal que hipnotizava o auditório nos programas de TV com músicas dançantes tropicalíssimas. Ele conquistará um país inteiro até que -num momento delicadíssimo da história do pais - será irremediavelmente acusado de dedo-duro e amigo da ditadura. De uma fama meteórica, acabou falecendo, anos depois, quase no ostracismo.


Completamente apolítico, o debochado Tim Maia envolverá legiões de fãs com seu suingue irresistível. E os festivais universitários revelarão compositores "cabeça" como Ivan Lins, Aldyr Blanc e Gonzaguinha.
Sempre pelos olhos de Nelson Motta, vemos a agora ruiva Rita Lee sair dos Mutantes para criar sua própria banda, a Tutty Frutty. Isso, anos antes de conhecer Roberto Carvalho, sua cara metade.
Mais adiante, presenciamos o nascimento do colorido rock brasuca da Blitz, dos Titãs  e dos Paralamas do Sucesso. Sem falar no Legião Urbana, capitaneados pelo genial Renato Russo. 
Está tudo lá, contado tim-tim por tim-tim por um baixinho que sabe muito bem do que está falando. Não é que Nelson Motta seja um gênio musical, nem mesmo um mestre das palavras. Mas escreve com graça e de forma tão divertida e entusiasmada que é difícil desgrudar do livro, que tem projeto gráfico agradável, assinado por Luiz Stein, e é recheado de fotos históricas.
No fim dessa viagem musical, já é 1992 e o Brasil está em pleno processo de impeachment. Nelson Motta então se veste preto e, no calçadão de Ipanema, junta-se a um mar de gente "de luto" gritando pela saída de Fernando Collor de Mello. Horas depois, embarca para Nova York "para começar tudo de novo". Aplausos.

Noites Tropicais 
Nelson Motta
Editora Objetiva
464 páginas