quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

No aniversário da Simone, A Cerimônia do Adeus.

Um dos maiores pensadores de seu tempo e grande expoente do existencialismo ateu,  Jean Paul Sartre (1905-1980) defendia  que a existência precede a essência, e, que, portanto, cada homem é responsável por seus atos. Para alguém que sempre pregou a não influência da natureza ou mesmo de Deus nas ações humanas, encarar uma gradativa decadência física e intelectual chega a ser uma ironia.  E foi o que Sartre viveu em seus últimos dez anos, aos quais temos acesso através do minucioso, rascante, dolorosamente sincero e por vezes indiscretamente cruel testemunho de sua companheira de uma vida inteira, a também filósofa Simone de Beauvoir.
Publicado em 1981, um ano após a morte de Sartre, “A Cerimônia do Adeus” traz um relato de seus últimos anos, acompanhados de suas próprias reflexões sobre a velhice, a decadência física e intelectual e a finitude da vida.
Enquanto a primeira parte do livro se baseia no diário pessoal da autora, com registros de inúmeros episódios de evolução da senilidade de Sartre, a segunda parte, com uma série de entrevistas que ela realizou com ele em 1974, parece pedir que nos lembremos do filósofo por suas ideias, estas sim, perenes.
“É então a cerimônia do adeus?” – disse-me Sartre quando nos separamos por cerca de um mês, em princípios de um Verão. Compreendi então o sentido que teriam um dia essas suas palavras. A Cerimônia durou dez anos e são esses mesmos anos que descrevo neste livro.”
Tendo formado o casal mais influente da intelectualidade no século XX, Simone e Sartre criaram uma relação amorosa absolutamente fora dos padrões para a época  – embora sempre juntos nunca se casaram oficialmente.  Mais que uma união, tinham um pacto: - Jamais esconder nada um do outro. Não eram fieis fisicamente – ambos tinham seus amantes, mas jamais se separaram. Apesar das incontáveis aventuras dele (que embora feio e vesgo, atraía belas e jovens mulheres pelo seu intelecto) e das inúmeras paixões dela, entre as quais a mais famosa pelo escritor norte-americano Nelson Algren.
Mais do que parceiros intelectuais pode-se dizer que eram cúmplices. Uma ligação que nem sempre foi ética (após a morte de ambos a correspondência trocada entre os dois revelou que partilhavam as mesmas amantes e nem sempre eram delicados nos comentários sobre as mesmas). Seguiam a máxima do existencialismo “se você me ama, não me ame”, preservando a liberdade de ambos.
Não se pode negar, porém, que constituíram uma parceria poderosa e quase imbatível, um contribuindo para o crescimento do outro.
Convicta da missão que um intelectual tem como testemunha de sua época (é preciso contar tudo, escrever tudo), Simone decidiu, a partir do diário que manteve durante uma década, publicar uma obra sobre o que ela chamou de “o fim de Sartre”. Um fim patético para aquele que foi um dos mais respeitados intelectuais de seu tempo.
Tendo partilhado com Sartre seus escritos ao longo de uma vida inteira, deve ter sido doloroso para ela escrever o prefácio do livro, no qual anuncia ser este “ o único certamente que você não leu antes que o imprimissem. Embora todo dedicado a você, ele já não lhe concerne”. Ao escrevê-lo, coerente com seus princípios ela dirige-se a Sartre, sabendo que fala para “o nada”. “Esse você que emprego é um engodo, um artifício retórico. Ninguém me ouve; não falo com ninguém.”
“Você está enclausurado; não sairá daí e eu não me juntarei a você: mesmo que me enterrem ao seu lado, de suas cinzas para meus restos não haverá nenhuma passagem”.  Uma constatação melancólica para alguém que sempre acreditou que a vida é uma só – aqui e agora - e não tem continuidade.
Ao relatar os últimos anos de Sartre, Simone teve o cuidado de ser o mais sincera possível, não escondeu nem floreou episódios. Ateve-se a contar os fatos como aconteceram. 
Mantendo-se fiel à memória, registra um episódio em que  Sartre queixa-se de “seu entorpecimento mental, com uma espécie de
ingenuidade encantadora":  "Não estou bobo. Mas estou vazio."
Há trechos respeitosos e comoventes como quando, aproximando-se do fim, o próprio Sartre admite em uma conversa com Simone que  “é preciso ser modesto quando se é velho”. Ou quando ele divaga sobre quanto tempo viverá “Não passarei dos setenta” (morreu aos 75). Há, por outro lado, capítulos, extremamente cruéis como os relatos de seu descontrole com a bebida e o fumo; os abcessos que o levaram a perder os dentes. A progressiva falta de memória e a incontinência urinária.

“Em Paris, na minha casa, no início de outubro, quando Sartre se levantou de onde estava sentado,
para ir ao banheiro, havia uma mancha em sua poltrona”.

Inexoravelmente chega a hora do adeus:
“Às nove horas, o telefone tocou. Ela me disse: "Terminou." Fui para lá com Sylvie. Ele estava igual a ele mesmo, mas já não respirava. Sylvie avisou Lanzmann, Bost, Pouillon, Horst, que vieram logo. Permitiram que ficássemos no quarto até cinco horas da manhã. Pedi a Sylvie que fosse buscar uísque e bebemos, falando sobre os últimos dias de Sartre, e das providências a tomar.”
Sozinha com Sartre, inerte na cama do hospital, Simone deita-se sobre o lençol para passar uma última noite com ele. 
“Estava mais ou menos anestesiada por valium e gida em meu desejo de não desmoronar. Dizia a mim mesma que era exatamente o enterro que Sartre desejava e que ele não o saberia.”
Foi então que ela escreveu na mente a última frase  do livro, que se tornaria o epitáfio de seu ídolo, parceiro e cúmplice.  
"Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo."
Publicada um ano após a morte do filósofo, a obra traz como dedicatória:  “para aqueles que amaram Sartre, que o amam, que o amarão.”
Existem várias maneiras de ver a obra "A Cerimônia do Adeus", último livro que Simone publicou em vida (ela faleceu cinco anos depois). Com horror, com espanto, com indignação ou com ternura e admiração. Podemos considerá-la uma homenagem sincera a Sartre ou uma despedida cruel da maior parceira de sua vida, a quem ele chamava carinhosamente de Castor. Porém, não há como ignorar a coragem da autora de ultrapassar os limites de seu papel de escritora. O que não faria Beauvoir se vivesse hoje, em tempos de internet, em que não há mais barreiras intransponíveis - e tudo pode ser visto, ouvido, lido, em tempo real?
Apesar de questionável para alguns e embora atroz em muitos momentos, ao descrever Sartre com toda a sua fragilidade - cambaleando, esquecido, ausente - Simone acabou criando uma obra admirável sobre a finitude da vida. Uma constatação de que nada é definitivo. Nem a vida, nem o poder, nem a glória. 
Nem mesmo Sartre e Beauvoir.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A cruz de Joseph Ratzinger

Com uma capa impactante, que mostra a imagem solitária e cabisbaixa de Joseph Ratzinger sobre fundo preto e um título, no mínimo, instigante, O Homem que não Queria Ser Papa, publicado pouco tempo após a renúncia do pontífice, promete responder à pergunta que não quer calar: - Por que Bento XVI renunciou ao posto mais importante da Igreja Católica, um feito tão inusitado e raro que o último a fazê-lo foi Gregório XII, há mais de sete séculos?
Numa mistura de biografia e relato jornalístico com toques de romance, Andreas Englisch descreve e analisa, em 576 páginas os oito anos de papado de Bento XVII. Mas não se atém a enumerar possíveis motivos da renúncia. Antes, conduz o leitor a um passeio pelo Vaticano, um estado teocrático dentro da cidade de Roma. Também relata fatos ocorridos em outros papados, em especial o do antecessor de Ratzinger, João Paulo II. De quebra, apresenta um painel de como funciona a máquina do Vaticano, especialmente seu departamento de Comunicação e Imprensa.
Há mais de vinte anos correspondente internacional, o autor, descreve com bom-humor (e uma pontinha de vaidade) suas peripécias na cobertura de eventos papais. Em certo ponto, nos leva a imaginar que ser repórter no Vaticano é praticamente a mesma coisa que ocupar cargo semelhante no Palácio de Buckingham de Londres ou na Casa Branca, em Washington. Cumpridos os protocolos e exigências, acaba sendo uma atividade jornalística como outra qualquer: cobrir viagens internacionais, participar de coletivas de imprensa, lutar pela melhor foto, a matéria mais impactante ou uma revelação surpreendente. Logo no início do livro acompanhamos o autor em diversas situações no cumprimento do dever:  aflito na primeira audiência, sonolento em outra ou muito febril no evento seguinte. 
Paralelo à descrição da vida do Papa, suas atividades cotidianas, problemas e desafios, o autor dá uma aula sobre como funciona o Vaticano. E fala – e muito – sobre o antecessor de Bento XVI, o carismático, midiático e amado João Paulo II.Referindo-se ao ex-papa pelo seu nome de batismo, Karol Wojtyla, cita as inúmeras diferenças entre um e outro, no que se refere a comportamento e personalidade. E mostra o quão difícil, desafiador e desgastante foi, para Bento XVI, ocupar o vazio deixado pelo seu antecessor.  Um Papa que – como nenhum outro – atraíra olhares do mundo inteiro, independente da crença ou falta dela. Ser o sucessor de um pontífice que conquistou a proeza de agradar a gregos e troianos, russos e americanos, tanto o mundo ocidental quanto o oriental. Que iniciou um diálogo com as outras religiões e seus líderes; e cujo prestígio foi tão grande que se tornou peça fundamental na derrocada do comunismo. 
Junte-se a isso o fato de que João Paulo II e Bento XVI eram figuras diametralmente opostas. Um, carismático e sorridente. O outro, circunspecto e sisudo. Um comunicativo e integrado, o outro, um teólogo radical. Um polonês, nascido num país que vergou sobre o peso do III Reich. O outro, um alemão que fez parte da juventude hitlerista (como era comum na época). Uma pecha que Ratzinger carregou durante todo o seu pontificado. Afinal, como o próprio Englisch, que é alemão, reconhece, o mundo ainda não conseguiu perdoar os crimes do nazismo.
Se Karol Wojtyla ficou conhecido como o Papa da Globalização, Bento XVI será lembrado como o Papa tímido, que nunca sabia o que fazer diante das multidões. Em certa feita, em visita oficial à Polônia, caminhou em direção a uma Igreja, sem sequer dirigir um aceno, à multidão que o aclamava. Em outro episódio, na Jordânia, ao passar por um local onde supostamente Jesus teria pisado, nem sequer desceu do veículo.
Descaso? Não. Simplesmente a adoração a lugares ou objetos não condiz com a visão que ele tem do sacerdócio. Como bem define o autor, Ratzinger era um teólogo da Bavária e teria preferido passar a vida inteira rodeado de livros, escrevendo seus artigos e defendendo a Igreja à moda antiga. Jamais imaginara tornar-se um papa.
Prova disso está na revelação do próprio papa de que ao ouvir seu nome ser anunciado no conclave, sentira “como se centenas de lanças tivessem sido cravadas em sua cabeça”. “Certamente” – cita Englisch – “poderia prever o desafio a que seria submetido”. Muitos e graves acontecimentos aos quais deveria prestar contas, como os casos de pedofilia envolvendo bispos e padres, que agora começavam a explodir em toda parte. Ratzinger nada poderia fazer para evitar que o assunto viesse à tona. Fora ele, como cardeal, um dos que mais cobrara do então papa João Paulo II providências para que a sujeira não ficasse escondida. Era ele, agora, como papa, que deveria pôr a mão na ferida.
Um a um, Englisch enumera os escândalos ocorridos no papado de Bento XVI: relatos de orgias homossexuais em seminários religiosos; um assassinato cometido dentro do Vaticano (o chefe da guarda suíça, que faz a segurança do Papa, foi morto junto com sua esposa, supostamente por um membro que cometeu o suicídio em seguida); a descoberta de que um dos mais notórios cardeais era um pedófilo que fez dezenas de vítimas e ainda assim não foi afastado do cargo. Sem contar nas passagens em que fica muito claro que a cúpula do Vaticano jogava contra o papa, deixando –o a mercê de situações constrangedoras, diante de perguntas capciosas de jornalistas.
Homem de letras, intelectual e defensor da Igreja tradicional, Joseph Ratzinger, definitivamente não era um homem talhado para enfrentar multidões ou câmeras de TV. Desconfortável no cargo, ainda assim, ele foi responsável por um dos grandes momentos da Igreja nos últimos anos, quando encarou verdades que seus antecessores nunca assumiram. Foi dele a decisão de ouvir pessoalmente o relato de vítimas de pedofilia na Igreja. Um dos gestos mais humanos de seu papado.  
Durante a leitura de "O Homem que Não Queria Ser Papa" nos alternamos entre a admiração ao ex-papa e a irritação com o jornalista-autor.
Ainda que tenha produzido um valioso registro do papado de Bento XVI, Andreas Englisch deixa escapar nas entrelinhas que nunca foi muito fã de Ratzinger, desde os tempos em que ele era cardeal. No entanto, como bom jornalista que é, descreve  a humildade e o senso de dever com que ele enfrentou a missão que lhe foi confiada. 
Mesmo não respondendo a todas as perguntas e apesar de alguns diálogos rocambolescos, dignos de O Código Da Vinci, este livro tem o mérito de mostrar como o homem Joseph Ratzinger enfrentou o maior desafio de sua vida. E sua coragem de renunciar, quando considerou a cruz pesada demais para um simples “teólogo da Bavária”.

O Homem que Não Queria Ser Papa

Andreas Englisch
Universo dos Livros

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Casa de Virginia Woolf.

Muito pouco resta a ser dito ou escrito sobre Virginia Woolf (1882-1941). Romancista, crítica literária e ensaísta, uma das pioneiras do modernismo britânico, dona de um estilo único e uma escrita poderosa, escreveu obras memoráveis como Mrs Dalloway, As Ondas, Orlando e o ensaio Um Teto Todo Seu, contribuindo para a valorização da voz  feminina na literatura.Mulher a frente de seu tempo, no sentido menos piegas da expressão, fundou com o marido, Leonard Woolf, a Hogart Press, que se tornou uma das mais influentes editoras britânicas do século XX. 
Ambos faziam parte do seleto Grupo Bloomsbury, formado por intelectuais sofisticados, que introduziu um novo pensamento literário na Inglaterra, em oposição à tradição vitoriana. Com um casamento atípico e feliz, marcado por cumplicidade, respeito e liberdade, Virginia viveu várias e intensas paixões por mulheres. Mais do que amá-las, aparentemente o que mais gostava era o fato de ser amada por elas.
Leonard & Virginia Woolf
Mas a parte mais marcante de sua personalidade era menos feita de sonhos que de pesadelos. Com episódios frequentes de alucinações e crises depressivas, vivia entre a loucura e a genialidade, entre a apatia e a produção, entre a paixão e a melancolia. Pouco à vontade no mundo, buscava nos livros um refúgio e na literatura uma salvação. E tinha tanto medo de enlouquecer que acabou pondo fim à vida em 28 de março de 1941, aos 59 anos, jogando-se no Rio Ouse. Sua carta despedida sugere que estava assim libertando o marido de um futuro sombrio ao seu lado. 
Contudo, havia uma Virginia, mais precisamente a do lado de dentro de casa, que entre trechos de romance e visitas de amigos/as ou períodos de depressão, se dedicava à prosaica tarefa de dar ordens às criadas Nelly Broxall e Lottie Hope; e decidir o menu do jantar.
É essa a Virginia retratada pela escritora espanhola Alicia Giménez Bartlett, em A Casa de Virginia W. Um romance que expõe a relação tumultuada entre a escritora e Nelly Broxall, que trabalhou para os Woolf por 18 anos. Um relacionamento cordial no início, delicado com o passar dos anos e perigosamente nocivo no final. 
A ideia do livro surgiu quando Giménez, estudiosa do grupo Bloomsbury e seus protagonistas, debruçada num dos diários de Virginia, se deparou com o seguinte trecho: “Se este diário tivesse sido escrito por mim e um belo dia caísse em minhas mãos, eu tentaria escrever um romance sobre Nelly, a personagem. Toda a história entre nós duas, os esforços de Leonard e meus por nos livrarmos dela, nossas reconciliações.”
Resolveu então atender a esse “chamado”.
Pesquisando sobre o paradeiro de Nelly, acabou descobrindo em Londres uma certa Lady Prudence, que havia arrematado o diário da criada em um leilão. Conseguiu dela a autorização para fotografar as páginas, desde que não as usasse na totalidade. Promessa feita, desafio encaminhado. 
Alternando imagens reconstruídas de episódios extraídos das diversas biografias da escritora, com trechos dos diários de patroa e empregada, Bartlett nos revela o mundo doméstico de Virginia Woolf. As conversas triviais com as criadas, a escolha do cardápio do dia, encontros com amigos e suas constantes crises depressivas. Durante todo o livro, as vozes se alternam. Ora um diálogo recriado entre Virginia e Nelly sobre o significado do voto feminino (na época aprovado com inúmeras restrições); ora um trecho do diário da criada com reflexões sobre a falta de perspectiva de sua vida; num momento, um panorama das dificuldades pelas quais passava a Inglaterra em tempos de guerra; em outro, a voz da própria Alicia que se faz ouvir, com colocações sobre Virginia, sobre Nelly – e o tempo chuvoso de Londres!

 “Eu gosto quando a patroa está contente e não aguento quando a vejo com aquele olhar tão triste que se perde no ar. A patroa está completando 36 anos.”

“A patroa está de cama há quatro dias. Quando tem gripe ela nunca se levanta antes de uma semana. Isso também me entristece.”

Na recriação de autora, visualizamos uma atarantada serviçal, não muito inteligente, mas não de todo ignóbil, que soube tirar proveito do contato com os patrões intelectuais e seus amigos para ampliar seus pensamentos e visão do mundo. Nos jantares na casa de Virginia e Leonard era comum se encontrar artistas e intelectuais como Roger Fry, Katherine Mansfield, Vanessa Bell (irmã de Virginia) e a poetisa Vitta Sackville-West, com quem ela teve um forte affair que inspirou a obra Orlando, descrita por Nigel Nicholson como "a mais longa e mais encantadora carta de amor de toda a literatura".

“Ontem chegou a honorável Sra Vitta Sackville-West também chamada Sra Nicholson que passará toda a semana conosco em Monk´s House. É a primeira vez que eu vejo uma honorável. Não saberia dizer se ela é bonita ou não.”

Os hábitos inusitados do casal Woolf e as ideias avançadas do grupo não escapam ao olhar atento e espantado das criadas:

“Meu Pai eterno, ri tanto que achei que muitas costelas iriam se partir! Imaginei tudo desde o princípio, desde que Lottie veio porta adentro com os olhos arregalados e me disse que eles tinham começado a falar da Sociedade Britânica do Sexo. Estava escandalizada, sobretudo, porque haviam falado na sua frente, quando ela preparou a mesa para servir o chá.”

Embora aprendesse muito com o convívio com os patrões, Nelly delimitava uma linha imaginária que a separava do mundo deles. Jamais teria uma casa, dificilmente teria um casamento e ainda que o tivesse (como a própria patroa dizia), provavelmente seria mais uma escrava do marido, trabalhando sem receber.

- Então uma mulher não deve se casar nunca?”
- Não sei, Nelly, não sei, talvez em tempos menos complicados, ou com um homem que ele possa oferecer algo melhor.
O fato é que Nelly rompeu um noivado com um homem bastante simples e nunca se casou.

Reunião do Grupo Bloomsbury
Com o tempo, nos diários de Nelly e de Virginia, Alicia descobre menções a respeito de incidentes domésticos, percebendo as transformações pelas quais passa o relacionamento. Nelly torna-se mais questionadora, Virginia mais impaciente. Nelly se comporta de forma crítica e irônica. Virginia mantém-se distante, quase indiferente. Muito embora a animosidade se alternasse com fases de tranquilidade, o fato é que a relação entre as duas parecia prestes a explodir.
Entre diversas reflexões, Bartlett busca analisar, aos olhos de Nelly, o envolvimento de Virginia Woolf com suas amigas. “É inútil tentar saber se entre Virginia Woolf e Vitta Sackville-West houve algo maior que um amor espiritual baseado na fascinação mútua. Há biógrafos que se inclinam por essa opção e outros que sustentam que entre ambas houve contato sexual. (...) Lendo o diário de Nelly, também não podemos encontrar alguma luz sobre a índole desse amor. Mas isso pouco importa para minha reconstrução da vida de Nelly. O fato evidente é que aquela relação escandalizava a cozinheira , e não porque fosse algo diferente daquilo a que os membros do grupo a tinham acostumado, mas pela vergonha pública que representava para Leonard Woolf. Curioso.”
Monk´s House (A Casa de Virginia Woolf)

Com base no livro, não causa estranheza o comportamento da criada. Para alguém como ela, que nada possuía de seu no mundo (nem mesmo o quarto em que dormia), sem perspectiva de ascensão, seria quase impossível não acalentar ressentimento pela patroa, bem nascida, intelectual e que tendo a sorte de um bom casamento, não valorizava tal destino. 

Aos olhos de Nelly, limitada em seu mundo de poucos sonhos, esta era possivelmente a maior afronta de Virginia: 

Ter a coragem de viver como queria e da forma a qual acreditava.
Quanto a Virginia Woolf, sempre imersa em seus trabalhos, reflexões (e crises) era provável que o temperamento agitado e atrevido da criada lhe provocasse mais cansaço do que repulsa.  A própria Nelly se queixa à Lottie: “Preferia que ela brigasse, não que ficasse com essa expressão de vítima no olhar”.
Para a circunspecta Virginia, devia ser mesmo complicado conviver com  os rompantes de urgência de Nelly, que a retirava de seu processo de sonho (a criação, a intelectualidade) para lembrar que faltavam legumes na despensa e que o preço do peixe estava caro.
Duas mulheres tão diferentes, tão perigosamente opostas, que é de se admirar que tenham convivido durante tanto tempo.

A CASA DE VIRGINIA W.

ALICIA GIMÉNEZ BARTLETT
EDIOURO

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Amor está no ar. E nos livros.

Em homenagem ao Dia dos Namorados, dez livros nos quais o amor está presente. A começar pelo título. 

1 - Do Amor – Stendhal
Escrito em 1820, neste livro, o autor francês Stendhal se propõe a fazer uma análise da natureza do sentimento amoroso e dos diversos aspectos de que ele se reveste. Como surge, o que transforma um sentimento de simpatia numa paixão avassaladora e qual o papel do ciúme. Para isso, partiu de sua própria experiência pessoal, uma desilusão amorosa. Nessa obra, Stendhal lança uma ideia que se tornaria célebre – a da cristalização amorosa. Segundo ele, a pessoa apaixonada cristaliza-se, paralisa-se, perdendo a capacidade de agir racionalmente, especialmente quando na presença de seu objeto amoroso. O livro se baseia na desilusão amorosa experimentada pelo autor em 1818, quando se apaixona por Matilde Dembowski, uma bela mulher, casada com um oficial de exército polonês. Seguindo-a numa viagem ao exterior, Stendhal provoca a ira de sua amada, que acaba rompendo a relação. O próprio autor chegou a nomear o livro “Do amor e das diversas fases dessa doença.”
“As pessoas felizes no amor têm aspecto profundamente atento, o que, para um francês, significa profundamente triste.”
“Há um prazer delicioso em apertar nos braços uma mulher que lhe fez muito mal, que foi sua cruel inimiga durante muito tempo e que está pronta para continuar a sê-lo. ”
2) Para Viver um Grande Amor – Vinícius de Moraes.
Quem senão ele, autor de versos inesquecíveis como “Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, para cantar o amor em suas diversas formas?Vinícius de Moraes, falecido em 1980, foi um homem apaixonado no verdadeiro sentido da palavra, sentimento que aqui não se limita apenas às mulheres de sua vida (casou-se oito vezes), mas à própria vida, a arte, a poesia e os amigos.  Publicado pela primeira vez em 1962, Para viver um grande Amor alterna poesia e prosa, versando sobre os mais diversos temas, em especial, seu preferido: o amor. A primeira edição do livro, tem dedicatória para Lucinha, a terceira mulher do poeta.
“Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor”.

3) O Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez.

Inspirado na história de amor vivida por seus pais, Gabriel Garcia Márquez oferece aos leitores
uma das maiores obra-primas da literatura contemporânea. O Amor nos Tempos do Cólera tem como tema o romance de Florentino Ariza e Fermina Daza, que demora mais de meio século para se concretizar. Apaixonado pelas tranças de Fermina, o jovem Florentino passa a enviar-lhe cartas apaixonadas, mas o romance é frustrado pela oposição do pai da moça, que a envia para uma temporada no interior. Ao retornar, atendendo à vontade paterna, Fermina casa-se com o médico Juvenal Urbino, que chegara para combater a epidemia do cólera na cidade. O casamento dura 50 anos, até a morte do doutor (um dos melhores capítulos do livro). O amor de Florentino, porém, persiste a vida inteira. Segundo García Marquez, este romance foi escrito "com as entranhas”. E é assim que esse romance chega ao leitor: arrebatador. Mais do que O Amor nos Tempos do Cólera, esta é, na verdade, uma história sobre todos os amores, de todos os tempos.
"Florentino Ariza, por outro lado, não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias."

4) Querido Scott, Querida Zelda - As Cartas de Amor de Scott e Zelda Fitzgerald.
Coletânea organizada por Jackson R. Bryer e Cathy W. Barks,  este livro reúne mais de 300 cartas e telegramas trocados entre o escritor norte-americano Scott Fitzgerald e sua esposa Zelda, revelando a paixão vivida por duas pessoas vulneráveis ​​ que não sabiam (ou queriam) viver sem a outra. As primeiras cartas datam de 1918, ano em que o casal se conheceu, e as últimas de 1940, quando Fitzgerald morreu, de ataque cardíaco.A relação tumultuada dos dois influenciou a maior parte das obras dele e a única dela - Esta valsa é minha. Levando uma vida cheia de altos e baixos, o casal mudou-se várias vezes e acabou fixando residência em Paris, em 1924, onde tiveram contato com escritores americanos como Gertrude Stein e Ernest Hemingway, entre outros da chamada “geração perdida”. Nas cartas, percebem-se as sucessivas brigas e reconciliações do casal, os problemas de alcoolismo de Fitzgerald e os indícios  progressivos da doença mental de Zelda. Só não dá pra dizer que eles não se amaram.
Para minha querida mulher, minha doce e adorada
Baboo, sem cujo amor e ajuda
nem este nem qualquer outro livro
seria jamais possível. 
De mim, que a amo mais
a cada dia que passa, com o coração
transbordando de veneração por esse ser adorável.

 (Dedicatória de Scott para Zelda em seu segundo romance, Belos e Malditos)
5) Cem Sonetos de Amor - Pablo Neruda
Uma das maiores vozes da poesia mundial do século XX, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) alternou uma vida de engajamento com  a causa da liberdade e os devaneios de uma alma lírica e apaixonada. Obra que emociona seus leitores há várias gerações, este livro traz os principais poemas de Neruda, que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 1971. Dividido em quatro partes - manhã, meio-dia, tarde e noite,  tem como tema central o amor e foi dedicado a Matilde Urrutia, sua última musa."Com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância (...)" 

Soneto LXVI

"Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não te querer eu quero
e de esperar-te quando não te espero
passa o meu coração de frio ao fogo.
Te quero só porque a ti eu quero
do ódio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego."











6) Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco
Representante luso nesta seleção, Camilo Castelo Branco oferece nesta novela, publicada em 1862, a  história de amor entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque A obra destaca o choque entre duas gerações – os pais que se odeiam – os fidalgos Tadeu de Albuquerque de Domingos Botelho e o jovem casal que se ama, Teresa e Simão. Com forte oposição da família, Teresa é enviada a um Convento para ser afastada do amado e as consequências são irremediáveis. Bem ao estilo de Romeu e Julieta, esse romance tornou-se um  marco no romantismo Português.


7) De Amor e de Sombras - Isabel Allende
O segundo romance da escritora chilena Isabel Allende  nos transporta para um país da América Latina que vive sob o jugo de uma ditadura militar encabeçada pelo anônimo General, designação que nos remete ao ditador Pinochet.
Irene Beltran, uma jornalista proveniente de uma família abastada, e Francisco Leal, um fotógrafo filho de um professor Marxista, se deparam com uma sepultura coletiva, onde foram despejados os corpos das pessoas torturadas e assassinadas pela polícia. E se enveredam por uma corajosa investigação em busca da verdade, numa nação mergulhada em terror e com seu amor crescendo à sombra da morte.
Segundo a autora, ela  escreveu "De amor e de sombras" para que o tempo não apagasse "a história de uma mulher e de um homem que se amaram plenamente, salvando-se assim de uma existência vulgar". 

8) Amor é Prosa, Sexo é Poesia - Arnaldo Jabor
Publicado pela primeira vez em 2004, este livro reúne 36 crônicas em 197 páginas, recheadas de ironia e bom humor, uma rabugice saudosista e um romantismo melancólico, próprio do autor. Em “Amor é prosa, sexo é poesia”, a relação amorosa aparece em vários momentos, principalmente na crônica que dá origem ao título do livro, na qual  o autor faz uma comparação entre o amor e o sexo, defendendo que, em sua opinião, embora se complementem, estes não são iguais. E por que seriam?
“O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo. Sexo é contra a lei. O amor vem depois. O sexo vem antes. O amor sonha com grande redenção. O sexo só pensa em proibições. Amor é casa; sexo é invasão de domicílio. Amor é o sonho por um romântico latifúndio; o sexo é o MST. Amor é um texto. Sexo é esporte. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval”.
9) Amor - Isabel Allende 
Ao completar 70 anos no ano passado, a escritora chilena Isabel Allende, atendendo à sugestão de seu editor, celebrou seu aniversário reunindo num livro  de contos as principais cenas de amor de seus romances. O livro, que não poderia ter outro nome, é dividido por temas, e em cada um deles, há uma seleção de textos que abrange vários títulos, entre eles "A Ilha sob o Mar", "Filha da Fortuna", "A Soma dos Dias" e "A Casa dos Espíritos". E para tornar essa escolha mais especial, a autora explica o motivo da escolha dos trechos. O recado é claro: Atreva-se a amar. 
"Passei minha vida apaixonada, não me recordo de uma época em que não estivesse amando, mas mesmo assim, o amor é mais fácil na literatura". "Por sorte, tenho a escrita, onde posso viver todas as aventuras que na vida real não poderia fazer nos meus pensamentos".
10) Do Amor e Outros Demônios - Gabriel García Marquez
Publicado em 1995, esta obra traz todos os ingredientes que compõem uma história de Gabriel Garcia Márquez. Baseia-se em um acontecimento por ele vivenciado, misturando elementos da mitologia popular e uma tocante crítica à intolerância religiosa. E, principalmente, mistura amor e sofrimento, como se ambos fossem sentimentos indissociáveis. O livro tem inspiração em seus tempos de repórter em 1949, quando, ao cobrir a remoção das criptas funerárias de um Convento, depara-se com uma ossada com cabelos cor de cobre, de aproximadamente 22 metros. Recorda-se então da lenda contada por sua avó sobre uma marquesinha do Caribe, de longa cabeleira, que morrera mordida por um cão. Anos depois, o Gabo recria a história da menina, brindando-nos com uma dolorosa narrativa sobre o amor – e seus demônios.
"Ela lhe perguntou num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia.
 - É verdade - respondeu ele -, mas é melhor não acreditares." 

 “Como estamos longe! - suspirou ele.
- De quê?
- De nós mesmos."