segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Gertrude Stein, 140 anos.

Não é minha escritora preferida. Não é nem de longe o estilo de escrita que eu aprecio. Só li, de sua autoria, A Autobiografia de Alice B. Toklas, que merece aplausos. Mas, como eu admiro mulheres que desbravam, que ousam, que se impõem em sua área de atuação, e hoje é seu aniversário de nascimento, o post do dia é para ela.

Gertrude Stein nasceu em 3 de fevereiro de 1874, na cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Membro de uma próspera família judia próspera, passou boa parte de sua vida na Áustria e na França. Estudou Psicologia com os renomados William James e Henri Bérgson, não chegou a se formar e mudou-se para Paris em 1903. Lá conheceu a também americana Alice B. Toklas, com quem passou a viver e constituiu uma sólida relação, incomum para a época.

Em sua casa na Rue de Fleurus, número 27, colecionava obras de arte e criou um ateliê onde recebia um grupo de artistas e intelectuais, como Picasso, Matisse, e Guillaume Apollinaire e escritores ex-patriados como James Joyce, Ernest Hemingway e Ezra Pound. Os encontros se tornaram célebres e aquele grupo de escritores ficou conhecido como a geração perdida. Esse período é retratado em seu único best seller, A Autobiografia de Alice B. Toklas, de 1933. Nele Gertrude revela como jovens criadores, de origens as mais variadas, foram se refugiar em Paris nos tempos de guerra. A obra se tornaria um dos marcos essenciais do movimento vanguardista.
Suas primeiras obras, O Modo de Ser dos Americanos, que ela escreveu de 1906 a 1908, e Três Vidas, de 1909 utilizavam recursos textuais difíceis de se absorver – alguns críticos consideravam sua escrita automática.  Criava, por exemplo, parágrafos completos sem nenhuma pontuação. Era considerada uma autora genial, mas hermética.  
A Autobiografia de Alice B. Toklas, que escreveu usando como narradora sua companheira da vida inteira, foi a obra que lhe trouxe notoriedade e aceitação por parte de público e crítica.

Frases:
"Se você não pode dizer nada gentil sobre alguém, sente-se ao meu lado".

"Críticas não são literatura."

"Para mim, ler e escrever é sinônimo de existir".

"Escrever é escrever é escrever é escrever é escrever é escrever é escrever".

"É verdade, os judeus só deram três gênios originais: Cristo, Spinoza e eu."

Retrato de Gertrude Stein pintado por Picasso

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Maysa, dois olhos e uma boca.

Ele não tinha nem seis anos de idade, quando Maysa, a musa dos olhos verdes da música brasileira, se dirigiu para a morte, no dia 22 de janeiro de 1977, a bordo de sua Brasília azul, na Ponte Rio Niterói. Ainda assim, o jornalista capixaba José Roberto Santos Neves aceitou o desafio de contar a história de uma das maiores cantoras que o país já produziu.
Dona de uma voz grave e rascante, Maysa cantou como ninguém a dor e a delícia de ser o que é (bem antes do famoso verso de Caetano Veloso).
Inicialmente o livro "Maysa"  fez parte da coleção Grandes Nomes do Espírito Santo, organizada por Antônio Pádua Gurgel, que reúne biografias de personalidades ligadas à história do estado. Mas o autor gostou tanto da experiência que lançou uma segunda edição em 2008, repaginada e reabastecida de informações que ele alinhava com o respeito e o cuidado de quem aprendeu a admirar ainda mais Maysa, à medida que desvendava sua história, repleta de emoção, entrega, paixão e dor.
No livro, José Roberto conta como Maysa, sendo filha de  família ilustre capixaba (seu avô foi o Barão de Monjardim e seu pai, Alcebíades Monjardim, foi deputado estadual e federal), acabou indo nascer em Botafogo, Rio de Janeiro, no ano de 1936, onde viviam os avós maternos. E pelas mãos de uma parteira, como era comum na época.
Sempre com foco no ES, ele revela que Maysa viveu o primeiro ano na capital do estado, Vitória, mudando-se com a família para Bauru, no interior de São Paulo, quando seu pai é convidado por Getúlio Vargas para exercer o cargo de Fiscal do Imposto do Consumo.
Em São Paulo, a casa de Maysa respirava música. Além da tia Lia, que tocava piano e a ensinou a dedilhar o instrumento, sua mãe era amiga de Elizeth Cardoso, que se tornaria sua inspiração. E seu pai, amigo de Sílvio Caldas, com quem a menina aprendeu os primeiros acordes de violão.
Mesmo morando fora, as raízes capixabas são mantidas e a família continua a passar o verão em Vitória, na casa de parentes. Dessa época, vem a convivência intensa com o primo Jayme Figueira, cujo depoimento é valioso no conteúdo do livro.
Segundo José Roberto, a vida de Maysa dá uma guinada logo no fim da adolescência quando conhece o empresário André Matarazzo, 18 anos mais velho, rico e influente. Ao se casarem, em 1954, ela tinha apenas 18 anos, e a cerimônia foi tão concorrida quanto um casamento de celebridades. Dois anos depois, nasce seu primeiro e único filho, Jayminho, que se tornaria o reconhecido diretor de novelas Jayme Monjardim. 
O casamento começa a dar sinais de desgaste. Maysa, apaixonada pela música, passa a se apresentar, timidamente, em eventos fechados, até que – como era de se esperar, por seu alcance vocal -  surge o convite para gravar um disco. A rigidez de André, que não via com bons olhos o desejo da esposa de cantar profissionalmente, e o peso do nome Matarazzo tornam-se empecilhos para a carreira. Para gravar seu primeiro LP, "Convite para ouvir Maysa", o marido exige que ela não use o sobrenome e que a renda seja revertida para fins beneficentes. Mal sabia ele que estava ajudando a lançar um nome que o Brasil jamais esqueceria.
Em pouco tempo, a bela moça mergulhou na carreira artística, conquistando bem mais que o público familiar, atraindo os olhos e ouvidos dos críticos e encantando o país. A carreira vai de vento em popa. Já o casamento, naufragava. 
“No segundo semestre de 1957, convidada para apresentar um programa na TV Rio, Maysa disse ao pai que não voltaria mais para São Paulo, nem para o marido. Alcebíades a entendeu. André, nem tanto. Ele foi ao Rio várias vezes tentar a reconciliação. Mas Maysa estava decidida.”
Com a separação, Jayminho é criado pelos avós maternos, já que a mãe viajava muito a trabalho. Maysa passa a enfrentar o grande inimigo de sua vida: o alcoolismo. Com tendência a engordar, começa a tomar moderadores de apetite, que, combinados com doses de uísque, a deixavam alucinada. Se a mistura já era perigosa, a personalidade forte de Maysa apimentava ainda mais seus efeitos. Desbocada, irônica e voluntariosa, ela se entrega de corpo e alma, à música e às paixões. Ela mesma admitiria, segundo José Roberto, que entre 1958 e 1972 sua vida se  tornaria “um pileque só”.
“A bebedeira a levava a tomar atitudes extremas como volta e meia atirar um sapato, copo ou microfone na cabeça das pessoas que conversavam mais alto nas boates onde ela se apresentava”. Bem mais radical que João Gilberto.
Estrelando o programa Encontro com Maysa, na Record, o sucesso da cantora não se refletia em seu estado de espírito.
“Compus muitas musicas e devo ter gravado umas cinquenta. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui compor nada alegre”.
Quando a Bossa Nova chegou, arrebatando corações, Maysa até flertou com o ritmo, mas estava mesmo encantada com a dupla Tom e Vinicius.  Segundo José Roberto Santos Neves, entre as 24 gravações de “Eu sei que vou te amar” está a dela, no LP Maysa é Maysa... É Maysa... É Maysa, de 1959.
No mesmo ano, sairia o quarto LP, com músicas como "Exaltação do Amor", de Tom e Vinicius e Noite de Paz, de Dolores Duran, que viria a falecer naquele ano.

A carreira de Maysa seguiu em altos e baixos, confundindo-se com sua vida. Dentre seus grandes amores estão Ronaldo Bôscoli e Carlos Alberto. Com o primeiro, viveu um amor entre tapas e beijos, com direito a muitos barracos. Com o segundo, afirmava ser uma paixão de outras vidas. Entre um e outro, casa-se com o empresário Miguel Azanza e decide morar fora do país, tentando uma carreira internacional. A temporada no exterior não dura mais que três anos. Nem o casamento.
Está tudo contado no livro de José Roberto, que foi o primeiro a lançar uma biografia da cantora, reabrindo o interesse sobre sua vida e obra. Depois dele, vieram outros ótimos livros sobre a musa, de quem Manoel bandeira escreveu – "Maysa são dois olhos e uma boca".  
Para compor um retrato da bela cantora, José Roberto colheu depoimentos de amigos próximos como Roberto Menescal, Ricardo Cravo Alvim e Sergios Sarkis, e de membros da família, como o primo e grande amigo Jayme Figueira, além de consultar obras como “Eu e elas”, a autobiografia de Ronaldo Bôscoli e “Chega de Saudade” (Ruy Castro).
Autora de canções como “Ouça” e “Meu Mundo Caiu”, Maysa foi intérprete memorável de músicas como “Se todos fossem iguais a você” e “Ne me quite pas”. Em cada gravação, deixou sua marca registrada – a emoção à flor da pele.
São incontáveis e divertidas (ou não) as histórias de seus porres homéricos, barracos e confusões. Mas Maysa seguramente foi muito mais do que isso – e por trás da aparência agressiva, havia uma mulher carente. Incompreendida, talvez. Sofrida, certamente. Mas inegavelmente uma das maiores – senão a maior voz que o Brasil viu nascer.
No livro, que traz na capa uma arte de seus belos olhos,  José Roberto Santos Neves traz um aperitivo para quem quer conhecer mais sobre a mulher Maysa. Porque a cantora dispensa apresentações.






José Roberto Santos Neves -  Nasceu em Vitória em 1971. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com pós-graduação em Gestão em Assessoria de Comunicação pela Faesa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

No aniversário da Simone, A Cerimônia do Adeus.

Um dos maiores pensadores de seu tempo e grande expoente do existencialismo ateu,  Jean Paul Sartre (1905-1980) defendia  que a existência precede a essência, e, que, portanto, cada homem é responsável por seus atos. Para alguém que sempre pregou a não influência da natureza ou mesmo de Deus nas ações humanas, encarar uma gradativa decadência física e intelectual chega a ser uma ironia.  E foi o que Sartre viveu em seus últimos dez anos, aos quais temos acesso através do minucioso, rascante, dolorosamente sincero e por vezes indiscretamente cruel testemunho de sua companheira de uma vida inteira, a também filósofa Simone de Beauvoir.
Publicado em 1981, um ano após a morte de Sartre, “A Cerimônia do Adeus” traz um relato de seus últimos anos, acompanhados de suas próprias reflexões sobre a velhice, a decadência física e intelectual e a finitude da vida.
Enquanto a primeira parte do livro se baseia no diário pessoal da autora, com registros de inúmeros episódios de evolução da senilidade de Sartre, a segunda parte, com uma série de entrevistas que ela realizou com ele em 1974, parece pedir que nos lembremos do filósofo por suas ideias, estas sim, perenes.
“É então a cerimônia do adeus?” – disse-me Sartre quando nos separamos por cerca de um mês, em princípios de um Verão. Compreendi então o sentido que teriam um dia essas suas palavras. A Cerimônia durou dez anos e são esses mesmos anos que descrevo neste livro.”
Tendo formado o casal mais influente da intelectualidade no século XX, Simone e Sartre criaram uma relação amorosa absolutamente fora dos padrões para a época  – embora sempre juntos nunca se casaram oficialmente.  Mais que uma união, tinham um pacto: - Jamais esconder nada um do outro. Não eram fieis fisicamente – ambos tinham seus amantes, mas jamais se separaram. Apesar das incontáveis aventuras dele (que embora feio e vesgo, atraía belas e jovens mulheres pelo seu intelecto) e das inúmeras paixões dela, entre as quais a mais famosa pelo escritor norte-americano Nelson Algren.
Mais do que parceiros intelectuais pode-se dizer que eram cúmplices. Uma ligação que nem sempre foi ética (após a morte de ambos a correspondência trocada entre os dois revelou que partilhavam as mesmas amantes e nem sempre eram delicados nos comentários sobre as mesmas). Seguiam a máxima do existencialismo “se você me ama, não me ame”, preservando a liberdade de ambos.
Não se pode negar, porém, que constituíram uma parceria poderosa e quase imbatível, um contribuindo para o crescimento do outro.
Convicta da missão que um intelectual tem como testemunha de sua época (é preciso contar tudo, escrever tudo), Simone decidiu, a partir do diário que manteve durante uma década, publicar uma obra sobre o que ela chamou de “o fim de Sartre”. Um fim patético para aquele que foi um dos mais respeitados intelectuais de seu tempo.
Tendo partilhado com Sartre seus escritos ao longo de uma vida inteira, deve ter sido doloroso para ela escrever o prefácio do livro, no qual anuncia ser este “ o único certamente que você não leu antes que o imprimissem. Embora todo dedicado a você, ele já não lhe concerne”. Ao escrevê-lo, coerente com seus princípios ela dirige-se a Sartre, sabendo que fala para “o nada”. “Esse você que emprego é um engodo, um artifício retórico. Ninguém me ouve; não falo com ninguém.”
“Você está enclausurado; não sairá daí e eu não me juntarei a você: mesmo que me enterrem ao seu lado, de suas cinzas para meus restos não haverá nenhuma passagem”.  Uma constatação melancólica para alguém que sempre acreditou que a vida é uma só – aqui e agora - e não tem continuidade.
Ao relatar os últimos anos de Sartre, Simone teve o cuidado de ser o mais sincera possível, não escondeu nem floreou episódios. Ateve-se a contar os fatos como aconteceram. 
Mantendo-se fiel à memória, registra um episódio em que  Sartre queixa-se de “seu entorpecimento mental, com uma espécie de
ingenuidade encantadora":  "Não estou bobo. Mas estou vazio."
Há trechos respeitosos e comoventes como quando, aproximando-se do fim, o próprio Sartre admite em uma conversa com Simone que  “é preciso ser modesto quando se é velho”. Ou quando ele divaga sobre quanto tempo viverá “Não passarei dos setenta” (morreu aos 75). Há, por outro lado, capítulos, extremamente cruéis como os relatos de seu descontrole com a bebida e o fumo; os abcessos que o levaram a perder os dentes. A progressiva falta de memória e a incontinência urinária.

“Em Paris, na minha casa, no início de outubro, quando Sartre se levantou de onde estava sentado,
para ir ao banheiro, havia uma mancha em sua poltrona”.

Inexoravelmente chega a hora do adeus:
“Às nove horas, o telefone tocou. Ela me disse: "Terminou." Fui para lá com Sylvie. Ele estava igual a ele mesmo, mas já não respirava. Sylvie avisou Lanzmann, Bost, Pouillon, Horst, que vieram logo. Permitiram que ficássemos no quarto até cinco horas da manhã. Pedi a Sylvie que fosse buscar uísque e bebemos, falando sobre os últimos dias de Sartre, e das providências a tomar.”
Sozinha com Sartre, inerte na cama do hospital, Simone deita-se sobre o lençol para passar uma última noite com ele. 
“Estava mais ou menos anestesiada por valium e gida em meu desejo de não desmoronar. Dizia a mim mesma que era exatamente o enterro que Sartre desejava e que ele não o saberia.”
Foi então que ela escreveu na mente a última frase  do livro, que se tornaria o epitáfio de seu ídolo, parceiro e cúmplice.  
"Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo."
Publicada um ano após a morte do filósofo, a obra traz como dedicatória:  “para aqueles que amaram Sartre, que o amam, que o amarão.”
Existem várias maneiras de ver a obra "A Cerimônia do Adeus", último livro que Simone publicou em vida (ela faleceu cinco anos depois). Com horror, com espanto, com indignação ou com ternura e admiração. Podemos considerá-la uma homenagem sincera a Sartre ou uma despedida cruel da maior parceira de sua vida, a quem ele chamava carinhosamente de Castor. Porém, não há como ignorar a coragem da autora de ultrapassar os limites de seu papel de escritora. O que não faria Beauvoir se vivesse hoje, em tempos de internet, em que não há mais barreiras intransponíveis - e tudo pode ser visto, ouvido, lido, em tempo real?
Apesar de questionável para alguns e embora atroz em muitos momentos, ao descrever Sartre com toda a sua fragilidade - cambaleando, esquecido, ausente - Simone acabou criando uma obra admirável sobre a finitude da vida. Uma constatação de que nada é definitivo. Nem a vida, nem o poder, nem a glória. 
Nem mesmo Sartre e Beauvoir.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A cruz de Joseph Ratzinger

Com uma capa impactante, que mostra a imagem solitária e cabisbaixa de Joseph Ratzinger sobre fundo preto e um título, no mínimo, instigante, O Homem que não Queria Ser Papa, publicado pouco tempo após a renúncia do pontífice, promete responder à pergunta que não quer calar: - Por que Bento XVI renunciou ao posto mais importante da Igreja Católica, um feito tão inusitado e raro que o último a fazê-lo foi Gregório XII, há mais de sete séculos?
Numa mistura de biografia e relato jornalístico com toques de romance, Andreas Englisch descreve e analisa, em 576 páginas os oito anos de papado de Bento XVII. Mas não se atém a enumerar possíveis motivos da renúncia. Antes, conduz o leitor a um passeio pelo Vaticano, um estado teocrático dentro da cidade de Roma. Também relata fatos ocorridos em outros papados, em especial o do antecessor de Ratzinger, João Paulo II. De quebra, apresenta um painel de como funciona a máquina do Vaticano, especialmente seu departamento de Comunicação e Imprensa.
Há mais de vinte anos correspondente internacional, o autor, descreve com bom-humor (e uma pontinha de vaidade) suas peripécias na cobertura de eventos papais. Em certo ponto, nos leva a imaginar que ser repórter no Vaticano é praticamente a mesma coisa que ocupar cargo semelhante no Palácio de Buckingham de Londres ou na Casa Branca, em Washington. Cumpridos os protocolos e exigências, acaba sendo uma atividade jornalística como outra qualquer: cobrir viagens internacionais, participar de coletivas de imprensa, lutar pela melhor foto, a matéria mais impactante ou uma revelação surpreendente. Logo no início do livro acompanhamos o autor em diversas situações no cumprimento do dever:  aflito na primeira audiência, sonolento em outra ou muito febril no evento seguinte. 
Paralelo à descrição da vida do Papa, suas atividades cotidianas, problemas e desafios, o autor dá uma aula sobre como funciona o Vaticano. E fala – e muito – sobre o antecessor de Bento XVI, o carismático, midiático e amado João Paulo II.Referindo-se ao ex-papa pelo seu nome de batismo, Karol Wojtyla, cita as inúmeras diferenças entre um e outro, no que se refere a comportamento e personalidade. E mostra o quão difícil, desafiador e desgastante foi, para Bento XVI, ocupar o vazio deixado pelo seu antecessor.  Um Papa que – como nenhum outro – atraíra olhares do mundo inteiro, independente da crença ou falta dela. Ser o sucessor de um pontífice que conquistou a proeza de agradar a gregos e troianos, russos e americanos, tanto o mundo ocidental quanto o oriental. Que iniciou um diálogo com as outras religiões e seus líderes; e cujo prestígio foi tão grande que se tornou peça fundamental na derrocada do comunismo. 
Junte-se a isso o fato de que João Paulo II e Bento XVI eram figuras diametralmente opostas. Um, carismático e sorridente. O outro, circunspecto e sisudo. Um comunicativo e integrado, o outro, um teólogo radical. Um polonês, nascido num país que vergou sobre o peso do III Reich. O outro, um alemão que fez parte da juventude hitlerista (como era comum na época). Uma pecha que Ratzinger carregou durante todo o seu pontificado. Afinal, como o próprio Englisch, que é alemão, reconhece, o mundo ainda não conseguiu perdoar os crimes do nazismo.
Se Karol Wojtyla ficou conhecido como o Papa da Globalização, Bento XVI será lembrado como o Papa tímido, que nunca sabia o que fazer diante das multidões. Em certa feita, em visita oficial à Polônia, caminhou em direção a uma Igreja, sem sequer dirigir um aceno, à multidão que o aclamava. Em outro episódio, na Jordânia, ao passar por um local onde supostamente Jesus teria pisado, nem sequer desceu do veículo.
Descaso? Não. Simplesmente a adoração a lugares ou objetos não condiz com a visão que ele tem do sacerdócio. Como bem define o autor, Ratzinger era um teólogo da Bavária e teria preferido passar a vida inteira rodeado de livros, escrevendo seus artigos e defendendo a Igreja à moda antiga. Jamais imaginara tornar-se um papa.
Prova disso está na revelação do próprio papa de que ao ouvir seu nome ser anunciado no conclave, sentira “como se centenas de lanças tivessem sido cravadas em sua cabeça”. “Certamente” – cita Englisch – “poderia prever o desafio a que seria submetido”. Muitos e graves acontecimentos aos quais deveria prestar contas, como os casos de pedofilia envolvendo bispos e padres, que agora começavam a explodir em toda parte. Ratzinger nada poderia fazer para evitar que o assunto viesse à tona. Fora ele, como cardeal, um dos que mais cobrara do então papa João Paulo II providências para que a sujeira não ficasse escondida. Era ele, agora, como papa, que deveria pôr a mão na ferida.
Um a um, Englisch enumera os escândalos ocorridos no papado de Bento XVI: relatos de orgias homossexuais em seminários religiosos; um assassinato cometido dentro do Vaticano (o chefe da guarda suíça, que faz a segurança do Papa, foi morto junto com sua esposa, supostamente por um membro que cometeu o suicídio em seguida); a descoberta de que um dos mais notórios cardeais era um pedófilo que fez dezenas de vítimas e ainda assim não foi afastado do cargo. Sem contar nas passagens em que fica muito claro que a cúpula do Vaticano jogava contra o papa, deixando –o a mercê de situações constrangedoras, diante de perguntas capciosas de jornalistas.
Homem de letras, intelectual e defensor da Igreja tradicional, Joseph Ratzinger, definitivamente não era um homem talhado para enfrentar multidões ou câmeras de TV. Desconfortável no cargo, ainda assim, ele foi responsável por um dos grandes momentos da Igreja nos últimos anos, quando encarou verdades que seus antecessores nunca assumiram. Foi dele a decisão de ouvir pessoalmente o relato de vítimas de pedofilia na Igreja. Um dos gestos mais humanos de seu papado.  
Durante a leitura de "O Homem que Não Queria Ser Papa" nos alternamos entre a admiração ao ex-papa e a irritação com o jornalista-autor.
Ainda que tenha produzido um valioso registro do papado de Bento XVI, Andreas Englisch deixa escapar nas entrelinhas que nunca foi muito fã de Ratzinger, desde os tempos em que ele era cardeal. No entanto, como bom jornalista que é, descreve  a humildade e o senso de dever com que ele enfrentou a missão que lhe foi confiada. 
Mesmo não respondendo a todas as perguntas e apesar de alguns diálogos rocambolescos, dignos de O Código Da Vinci, este livro tem o mérito de mostrar como o homem Joseph Ratzinger enfrentou o maior desafio de sua vida. E sua coragem de renunciar, quando considerou a cruz pesada demais para um simples “teólogo da Bavária”.

O Homem que Não Queria Ser Papa

Andreas Englisch
Universo dos Livros