segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sobre Cães, Rock e Letras

Hoje à noite meu irmão José Roberto Santos Neves tomará posse na Academia Espírito-Santense de Letras. Motivo de comemoração e orgulho que coroa uma história que ele vem escrevendo há mais tempo do se imagina.
Quem o vê hoje transitando com desenvoltura pelo mundo das Letras, junto com uma bem-sucedida carreira jornalística, talvez suponha que ele nunca tenha tido dúvidas sobre qual profissão seguir. Não exatamente. Antes de se formar Jornalista pela Universidade Federal do Espírito Santo e encontrar sua verdadeira vocação, ele quase se formou em Administração. Fato no mínimo curioso, já que o Jornalismo era um caminho óbvio na vida do menino que, desde cedo, manifestava curiosidade fora do comum e vivia pesquisando sobre assuntos de seu interesse, como raça de cães e futebol.
Não satisfeito em aprender sobre os temas, ele gostava de relatar as descobertas. Vivia com um livro sobre cães debaixo do braço narrando, para quem quisesse (ou não) ouvir, fatos curiosos sobre a espécie, como "qual o país de origem do Afghan Hound" ou "as inúmeras habilidades da raça Dobermann". Uma paixão tão grande que nos obrigava, irmãos mais velhos, a acompanhá-lo em suas peripécias, como um concurso de cães em Jacaraípe, no final dos anos 70, devidamente registrado em fotos por Guilherme.  
Para mim, única irmã, não faltam lembranças, como as brincadeiras em que ele era meu partner em programas "de TV" apresentados diante do espelho. Hoje, como ele mesmo admite, não pode pegar um microfone que dispara a falar.
Também coube a mim registrar sua primeira história, intitulada “Os três cãezinhos”, na qual ele narrava a chegada do nosso novo cão, Bug (que ele apelidou Boggie Ooggie, por causa de uma boate perto da nossa casa). Ao ser recebido pelos cães da família, Rex e Lobinho (assim mesmo, no diminutivo), o novo integrante recebe uma informação importante sobre o cachorro do vizinho - Au au au, Bug! O Bob é nosso inimigo! O texto datilografado ainda sobrevive, em papel amarelado, na casa dos meus pais.
Quem imaginaria que aquele menininho viraria jornalista e escritor? Eu imaginava.
No início dos anos 80, quando fui fazer um curso na Inglaterra, ele, então com dez anos, fazia questão de me escrever cartas, revelando as notícias, que dividia em tópicos como um mini jornal: "ESPORTES:  O Flamengo ganhou o título de campeão brasileiro, com certos erros do juiz". "DENÚNCIA: Você subornou Guilherme. Ele  diz que refrigerante é veneno". "MÚSICA: Caetano Veloso vem aqui em maio ou junho". "PESSOAL: Tirei 10 em Ciências, 8,2 em Matemática e 7,9 em Português".Tamanha criatividade me fazia rir e chorar de saudades do irmão caçula.
Numa das cartas ele conta, muito triste, que tinha tentado entrar com Guilherme no show do Caetano no Theatro Carlos Gomes, mas, por causa da idade, fora barrado pelo porteiro. Eu me pergunto: - O que fazia um menino de dez anos num show do Caetano? Era a música entrando em sua vida. Fato que se concretizou quando ele se uniu ao irmão João Paulo e nossos primos, Marcio Lacerda e João Damasceno, numa banda de rock – o Túmulo 7. Aos 13 anos ele, que parecia não ter qualquer aptidão musical, logo aprendeu a manejar as baquetas da bateria. O Túmulo 7 virou Seven, que virou Hell e depois o Zé foi perambular por outras bandas, como o Skelter e o The Rain.  Para nossa surpresa, pois, pelo que sei, ele não tem habilidade motora para mais nada na vida, a não ser batucar outro instrumento – o teclado do computador. Sem deixar de ser roqueiro, com o tempo ele aprimorou o gosto musical e resolveu – até por dever da profissão – conhecer outros ritmos, quando se apaixonou por Clara Nunes e Maysa, e se encantou pelo samba de João Nogueira, Paulinho da Viola, entre outros.  

Assim como tudo na vida do Zé, essa transição não aconteceu por acaso, mas seguiu uma lógica. Tendo passado de músico a repórter musical, da experiência que adquiriu cobrindo shows e eventos culturais, nasceram seus três livros – "Maysa", "MPB de Conversa em Conversa" e, por último, "Rockrise", o resgate de sua juventude na cena roqueira capixaba.
O que José Roberto sempre teve na vida foi coragem de ir à luta, meter a cara e fazer. Foi assim que ele escreveu seu primeiro livro, "Maysa" (Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo). Mergulhou na pesquisa dentro e fora do estado, entrevistou nomes como Roberto Menescal e, contra todos os obstáculos, inclusive o silêncio do filho de Maysa, Jayme Monjardim, escreveu a primeira biografia da cantora. Essa persistência lhe rendeu momentos impagáveis desde a infância, como no dia em que fomos com mamãe à pracinha de Vila Velha, assistir a um comício de Gerson Camata, então candidato a Governador do Espírito Santo. O menino não sossegou enquanto não apertou a mão do Camata. Ele tinha uns oito ou nove anos na época. 
Com a paixão de quem tem necessidade vital de se expressar, José Roberto adora conversar e, quando o assunto lhe interessa, é capaz de disparar em sua análise e continuar falando até mesmo quando o interlocutor não está mais ouvindo. Não é raro a gente dizer a ele: - Zé, não estou podendo te dar atenção. Ao que ele retruca, com bom-humor: - Não faz mal, eu falo assim mesmo...
Se eu tivesse que resumir numa frase a razão pela qual José Roberto está ocupando, na Academia Espírito-Santense de Letras, a cadeira de um imortal de quem foi amigo e discípulo, o escritor e jornalista Marien Calixte, eu diria apenas:  - Estava escrito.
Quem conviveu com ele desde cedo nunca duvidou de seu talento precoce, sua persistência e seu amor pela arte e pela cultura em todas as formas. Voa, meu irmão.

8 comentários:

  1. E está escrito a sua missão aqui na Terra Mária é nos emocionar com sua sensibilidade. Lindo texto cunhada!
    Daniella Spadeto

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    1. Como eu havia comentado, Dani, emocionante é ver esse "menino" conquistando mais uma vitória! Beijos.

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  2. Muito bonito o texto, muito bonito o Zé imortal. Parabéns para toda a família.

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    1. Obrigada, Aloísio. Fico feliz que tenha gostado! Beijos.

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  3. Joel Santos Neves Filho18 de agosto de 2014 18:36

    Muito feliz por ele. Parabéns pelo texto, Mária.

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    1. Joel, primo. Que bom ter notícias suas. Grande abraço pra vocês!

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  4. Minha irmã querida, estou aqui rindo emocionado com seu artigo. Vc realmente sabe descrever meu comportamento, minhas manias, minha persistência. Os episódios dos cachorros, do jornalzinho e do Camata são impagáveis. E o melhor é que vc participou de tudo isso, sempre me apoiando nas minhas ideias e projetos. Grande beijo, vc é linda!

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